Voluntários lêem para deficientes visuais em biblioteca pública de BH

Voluntários do Setor Braille têm de 14 a 80 anos e cada um lê entre uma e duas horas por dia; os atendimentos são agendados. (Foto/Leo Dias)

No setor Braile da Biblioteca Pública Estadual Luis de Bessa, na Praça da Liberdade, deficientes visuais encontram os Ledores, voluntários que os auxiliam na leitura de livros não adaptados para o braile e para o estudo de conteúdo em apostilas. Os voluntários fazem parte de um projeto de leitura pra deficientes visuais existe desde 2014, que representa um importante trabalho de inserção social dos deficientes visuais, tornando-se um ponto de encontro e aprendizado.

Fátima Fernandes, atendente do setor Braile, esclarece que os voluntários são selecionados para cada deficiente de acordo com a sua necessidade e disponibilidade de horário. Segundo Fátima, os interessados preenchem uma ficha de inscrição no momento de cadastro para o trabalho, na qual indicam quais matérias possuem domínio e qual o melhor horário para atendimento. “Temos mais de 400 voluntários cadastrados, porém muitos não conseguem vir por motivos diversos. Mas ainda assim, nenhum deficiente é deixado na mão no seu horário de estudo. Sempre temos voluntários reservas que moram perto e nos auxiliam em caso de emergência.”

A estudante de jornalismo Ana Borges, é uma das usuárias do setor e utiliza o auxílio dos voluntários desde que se tornou deficiente visual em 2000. “Eu estudo para a faculdade e o projeto me ajuda muito já que a maioria dos livros ainda não é adaptada. Tenho mais dificuldade com matemática, só consegui formar na escola graças ao trabalho do setor”. A estudante ainda complementou que fez o curso de braile oferecido pela biblioteca e que aprendeu a aceitar melhor sua deficiência devido ao contato com outros usuários do setor. Além de mesas de estudos, em que se esquece a ideia de silêncio obrigatório em uma biblioteca, o setor também é todo equipado com piso tátil, alem de computadores disponíveis para o uso dos deficientes visuais, sempre na companhia de alguns dos Ledores.

O entra e sai de voluntários e o clima harmonioso é característica marcante do local, o que torna o trabalho voluntário ainda mais especial. Ronaldo Toledo, professor aposentado e um dos ledores mais assíduos do setor, destaca que é uma experiência enriquecedora para voluntários e usuários e que o contato direto com os beneficiados deixa o trabalho ainda mais gratificante. “Eu trabalhei conferindo livros que foram traduzidos para o braile durante anos em São Paulo, e sempre tive contato com deficientes visuais. Mas nenhum trabalho é como o que eu vi aqui. O trabalho dos ledores é algo pioneiro da biblioteca de Belo Horizonte e acontece há anos. Logo que me mudei pra cidade e soube do projeto, tive vontade de participar disso tudo.” Enalteceu o professor.

(Foto/Laura Tartaglia)

O coordenador do Setor Braile, Glicélio Ramos, destaca que não é necessário ser especialista em tema algum para se tornar voluntário. É necessário apenas comprometimento e pontualidade. Acrescentou ainda, que diferentes grupos de estudos são formados de acordo com a demanda dos usuários. “Entre os que estão estudando, o desejo de passar em concurso público é quase unanimidade, sendo que alguns destes já exercem função como servidores do Estado. Os deficientes visuais vêm tentando se inserir no mercado de trabalho através dos concursos para adquirirem estabilidade. Como as apostilas de estudo não costumam ser transcritas para o braile, cerca de 70% dos nossos usuários atualmente tem buscado os auxílios dos ledores para o estudo desses materiais”, afirma Ramos.

Para agendar um horário com um ledor, é necessário comparecer pessoalmente à biblioteca e fazer uma carteirinha no valor de R$ 3,00. Com ela, o usuário terá acesso a todo acervo do setor. Para se tornar um voluntário, basta comparecer à biblioteca com documento de identidade e preencher a ficha de inscrição. O setor Braile se localiza no 2º andar da Biblioteca Luis de Bessa, na Praça da Liberdade, nº 21 – Funcionários. O horário de funcionamento é de segunda à sexta de 8h às 18h e aos sábados, de 9h às 11h30. Se quiser entrar em contato ou tirar dúvidas, ligue para 31 3269-1218 ou mande um email para braille.sub@cultura.mg.gov.br.

Atividades

Além de muito estudo, os usuários do setor braile também têm acesso a atividades de incentivo a leitura. Ao longo do ano, são realizadas palestras, cursos e até cinema especializado, apresentado por meio de audiodescrição. O clube de leitura é o evento de maior adesão, sendo freqüentado por voluntários, usuários e parentes. As reuniões ocorrem a cada dois meses e o encontro é aberto a todos os interessados e para participar é necessário apenas ter lido o livro indicado, disponível em Braille, áudio e em impressão comum na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.