O suicídio é coisa de gente fraca?

No Brasil, número de casos de crime contra a vida aumenta entre os homens.

O livro Manual prático do ódio, de autoria de Ferréz, é um romance que traz a público questões relacionadas ao ódio disseminado entre as pessoas na contemporaneidade. A obra trata, ainda, da fragmentação social construída pela escravidão e pelo capitalismo. Em diversos aspectos, o romance é um retrato da sociedade atual abordando temas como a violência, exclusão e até mesmo o suicídio. O suicídio, por sua vez, é tratado na obra como “coisa de gente fraca”, mas seria mesmo o suicídio coisa de gente fraca?

Para a Associação Brasileira de Psiquiatria, a resposta é não. De acordo com a Comissão de Prevenção de Suicídio da Associação, 75% dos casos de suicídio a nível mundial ocorrem nos países de média e baixa renda, ou seja, os países que possuem maiores taxas de desigualdade social são os que registram maior parte das ocorrências.

Ainda de acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, no Brasil a cada 100 habitantes 26 já pensaram em retirar a própria vida. O número de ocorrências está aumentando, principalmente, entre jovens e adultos de 15 a 29 anos do sexo masculino.

Para a professora Maria de Fátima Freire de Sá, doutora em Direito Privado e pesquisadora do CEBID (Centro de Estudos em Biodireito da PUC Minas), o suicídio provocado por implicações psicológicas e sociais é algo grave e que deve ser observado e tratado com atenção.

No CEBID, a professora desenvolve pesquisas sobre a eutanásia, que é o suicídio assistido. Ela ressalta que o suicídio assistido ocorre quando a pessoa já não suporta mais viver diante de enfermidades e questões, principalmente físicas, que a impossibilita de exercer uma vida minimamente digna. “Uma pessoa que vive 28 anos, tetraplégica, sob uma cama e se nega a usar cadeira de rodas, em determinado momento a vida pode deixar de ser interessante para ela”, exemplifica. “Se esta pessoa deseja deixar de viver, diante do um sofrimento comprovado; assim como temos direito à vida, ela pode ter o direito à morte.” Argumenta. A professora observa que isso não significa que a pessoa é fraca psicologicamente, mais indica a necessidade de se por fim a um sofrimento desde que comprovado psiquiátrica e fisicamente.

A professora prossegue dizendo que a eutanásia está em amplo debate acadêmico, mas ressalta que o procedimento não é permitido no Brasil. Ela ainda alega que todos os estudos devem ser desenvolvidos com muita cautela e observa que o crescimento dos suicídios no Brasil é preocupante.

Para os pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Ludmilla Gonçalves; Eduardo Gonçalves e Lourival Batista Júnior,os determinantes do suicídio são a pobreza e o grau de ruralização. Constata-se uma relação direta entre ruralização da microrregião (estudada) e taxas de suicídio. A violência contra a própria vida acontece mais frequente em ambientes rurais e não em cidades.” Afirmam. Ambos os pesquisadores se debruçaram sobre o tema pesquisando as determinantes espaciais e socioeconômicas do suicídio no Brasil. A conclusão da pesquisa vai ao encontro da tese de que o suicídio não é coisa de gente fraca, mas está relacionado principalmente a questões sociais, e que devem ser tratadas com urgência.

Para a Associação Brasileira de Psiquiatria, o tema deve ser visto com muita cautela e ao ser abordado deve-se dar ênfase para a prevenção. A imprensa, segundo a Associação, tem um papel importante no combate ao crime contra a própria vida. Segundo a comissão de prevenção ao suicídio, “não se pode banalizar, tão pouco fazer afirmações relacionadas à causa sem prévio conhecimento dos fatores, que são muitos”, afinal, suicídio não é coisa de gente fraca.

Foto: Reprodução/Tumblr

Thomaz Albano

Thomaz Albano é estudante de Jornalismo e membro fundador do Roteiro Alternativo. Aqui no RA atua como repórter, editor e integra a diretoria executiva.