O Baiano da rua Espírito Santo

Foto: Hugo Lobão

De repente aparece um garoto de aproximadamente 12 anos e o baleiro grita em direção a ele, “tô sabendo!”. O menino logo em seguida responde, de forma bem mais introvertida, com a mesma expressão. Surge então quase que um monólogo em que quem fala é o homem vestido com um avental e boné branco, enquanto o garoto, mexendo no celular, apenas escuta e responde no máximo com um seco “é”.

Baiano, baleiro há quase quarenta anos na portaria da rua Espirito Santo, do Minas Tênis Clube, explica a brincadeira. Tratava-se de uma pequena dívida de dois reais que o menino tinha com ele. Sempre quando cobrado, o jovem respondia: “tô sabendo”.

Nascido em Itaporanga d’Ajuda, cidade próxima de Aracaju, Baiano, aos 17 anos, seguiu os passos do irmão e decidiu vir para Belo Horizonte em busca de uma vida melhor. Desde então, trocou a enxada por um carrinho de balas. No início, o ponto era dividido com o seu irmão, que buscou outro sustento, deixando nas mãos de Baiano o carrinho.

Sergipano, o baleiro herdou do irmão o apelido. Conta que pela semelhança entre os sotaques, as pessoas acreditavam que ele era natural da Bahia. Hoje, Baiano gosta do apelido e diz que ninguém sabe onde ele realmente nasceu. “Já sou conhecido como Baiano, todo mundo me conhece assim e eu gosto”.

Durante a entrevista, um gerador estoura do outro lado da rua. O grande barulho e as faíscas geradas pela explosão assustaram a todos. “Deve ter sido um passarinho que pousou no lugar errado, deve ter voado pra longe”, explicou o conhecido baleiro. Logo, as pessoas começaram a procurá-lo para entender o que tinha ocorrido. Ao aparecerem os eletricistas do clube, Baiano brinca com um deles: “ ô ET de Varginha”, o homem não responde, então ele repete a frase e completa “ é você mesmo”. O homem atende o chamado e se aproxima.

– Esses meninos tão me entrevistando aqui, fala seu nome pra eles

– Eu não, pra quê?

– Fala logo, ET

– Dionísio

Baiano se dirige risonhamente a nós e diz:

– Escreve isso nesse caderno aí não, isso nem nome de gente é

– É nome grego, me respeita, sou chique

– Guê o que? Gay?

Morador do bairro Bonfim, Baiano vive nos fundos de uma sorveteria, onde compra todos os dias dois sabores de sorvete para vender junto com as balas. Segundo ele, desde quando começou, suas vendas caíram muito. Explica que, com as outras três unidades, o movimento, antes concentrado no Minas I, se dispersou. Além disso, o baleiro atribui às novas lanchonetes dentro do clube o declínio em suas vendas. “Antes, lá dentro tinha só picolé e pão na chapa, hoje até Araujo tem”. Baiano conta que vende de 80 a 100 reais por dia.

A todo momento, o baleiro se mostra orgulhoso da profissão. Inclusive, conta com entusiasmo suas histórias com os presidentes do Minas Tênis Clube e até seus filhos. Lembra que o Presidente da época em que ele chegou a BH, Urbano Santiago, gostava do chocolate confete e sempre comprava o doce em suas mãos. “ Eu não sou qualquer baleiro não”, se gaba.

Baiano ainda lembra de várias personalidades com as quais conviveu em seu dia-a-dia. Dentre elas, os profissionais do vôlei Hilma, Ana Flávia e Pelé; os nadadores Thiago Pereira e Rodrigo Castro. O último, inclusive, o convidou para uma festa que marcava o fim de sua carreira. Na ocasião, o baleiro não quis comparecer deixando o ex-nadador chateado. “Lembro que ele me xingou muito, até de filho da puta”. Explica que não quis ir ao evento porque, segundo ele, não era lugar para pobre ir.

Apesar de demostrar muito carinho com o Minas, o baleiro comenta que nunca teve vontade de entrar no clube. “Meu lugar é do lado cá, eles lá e eu aqui.

Além da porta do Minas, outro lugar que Baiano se sentia à vontade era no antigo Mineirão. Torcedor do Club Sportivo Sergipe desde a infância e cruzeirense por influência de um amigo mineiro, acostumou-se a ir todo final de semana ao estádio. Perna-de-pau confesso, o baleiro conta que, mesmo com seus 1,60m, jogava como zagueiro e intimidava os atacantes adversários. “Eu rachava no meio mesmo”, brincou.

Baiano conta que, em uma ocasião, por intermédio de um amigo, enviou uma provocação ao ex-jogador do Atlético e então comentarista do programa Alterosa Esporte, Dadá Maravilha. Por sua vez, o folclórico atacante do Galo, respondeu ao baleiro prometendo-lhe dar uma cadeirada. Rindo da história, Baiano relembra que, depois do episódio, todos zombavam dele.

– Por falar nisso, você é igualzinho ele

Divertiu-se o baleiro, apontando para um de nós, em meio a gargalhadas.

Após a reforma do Mineirão, Baiano foi ao estádio apenas uma vez, para levar seu filho. Pai de Eduardo Henrique, 12 anos, o baleiro vê o filho toda semana e faz questão de ligar para o menino frequentemente.

Caseiro, ele nos conta que evita botecos por temer confusões e não gostar de bagunça. Sendo assim, prefere tomar sua Brahma em casa, sozinho. Se enquanto veste seu guarda-pó e um “bunel” branco, Baiano se apresenta como brincalhão, sociável e sorridente, ao tirar seu uniforme, parece perder todo esse lado. É sério, sem muito de papo. “ Minha vida é aqui. Em casa, dou um bom dia, boa noite aos meus vizinhos, só”.

Entretanto, nem sempre foi assim. O baleiro assume que, quando era jovem, gostava muito de namorar. Em Belo Horizonte, encantou-se com a belezas das mulheres. “Minha terra tem muié feia demais”. Saudosista, se recorda de várias paqueras no Cine Brasil. Outro ponto que gera boas lembranças a Baiano é o Jardim Zoológico da cidade, onde se fascinava com as aves.

O amor pela capital mineira é tão grande, que o baleiro não se vê morando em outro lugar. Depois de 16 anos sem visitar sua cidade natal, recentemente, voltou ao Sergipe para visitar sua irmã, a qual ainda ajuda financeiramente. Saudades ele tem da família, mas Itaporanga d’Ajuda já ficou bem distante de sua realidade.

Entretanto, ao mesmo tempo em que é procurado por belorizontinos que buscam indicações de restaurantes da região, Baiano ainda guarda seu sotaque marcado – sergipano e não baiano- e expressões típicas da região. “Bonito é boi, ela é linda”, se referiu o baleiro a cidade que o acolheu.

O baleiro, que não gosta de balas, tem 56 anos. Seu nome é José Eduardo Santos.

Por Hugo Lobão e Pedro Lovisi

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