Números sobre o genocídio da população negra em Belo Horizonte são alarmantes

A cada 4 jovens mortos em Belo Horizonte, 3 são negros. Além disso, todos os dias pelo menos um jovem negro é morto, números que fazem de BH a 11º capital que mais mata estas pessoas. Estes dados foram apresentados pelo Relatório Parcial da Comissão Especial de Estudo sobre Homicídio de Jovens Negros e Pobres. A comissão foi criada em fevereiro de 2017 pelo Plenário da Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH).

O documento apresenta dados e análises sobre a realidade de genocídio da população jovem negra na cidade e recomendações dirigidas a Prefeitura de Belo Horizonte.  O relatório contou com a ajuda do professor doutor da Faculdade de Educação da UFMG, Rodrigo Ednilson de Jesus, para a elaboração do estudo técnico. Ele baseou sua pesquisa em indicadores como o Índice de Vulnerabilidade Juvenil de BH (IVJ-BH) e a Taxa de Homicídios por Arma de Fogo (HAF). Áurea Carolina, vereadora do PSOL, é a atual presidenta da Comissão; e Arnaldo Godoy (PT) é o relator.

O projeto, também mostrou que homicídios por arma de fogo são a forma mais letal de vulnerabilidade dos jovens negros. Quanto mais vulnerável um território, maior a presença de jovens negros e mais as chances de serem mortos por estas armas. Em 2010, foram assassinados 104 jovens brancos na capital mineira, um a cada três dias. No mesmo período, 392 jovens negros foram vítimas, ou seja, mais de um por dia. Entre 2003 e 2014, o número de mortes por arma de fogo entre a população branca diminuiu 26,1% e entre a população negra aumentou 46,9%. Proporcionalmente, em 2014, morreram 158,9% mais negros do que brancos.

Entrevista Coletiva concedida pela Comissão Especial de Estudo sobre o Homicídio de Jovens Negros e Pobres. Foto: Pedro Spinelli

A vereadora Áurea Carolina, em entrevista coletiva na Câmara Municipal de Belo Horizonte, frisou: ”Belo Horizonte é uma cidade extremamente violenta para sua juventude e sobretudo para os jovens negros e moradores das áreas periféricas. As mortes de jovens na capital mineira relacionam a vulnerabilidade social, o pertencimento racial e o local de moradia. Isto precisa ser evidenciado com precisão. A nossa principal recomendação é de um Plano Municipal de Enfrentamento aos Homicídios de Jovens Negros e Pobres, endereçando nos territórios mais críticos o investimento prioritário de recurso com políticas especializadas de prevenção a violência.”

A Psolista também destacou que é importante que a sociedade reconheça o racismo como um problema estrutural na cidade, como é no Brasil inteiro. ”Historicamente, essa violência foi sendo reproduzida. Nem sempre essa matança é intencional, mas exatamente pela omissão, pela negligência do estado, por uma não compreensão da sociedade, isto vai se configurando quase como um destino traçado para esses grupos sociais.”

Rodrigo Ednilson comentou a respeito da importância deste estudo de chegar as universidades: ”Tem uma reflexão sobre a sociedade brasileira. Isto nos ajudar a pensar e a ter outros olhares sobre a produção do conhecimento, no campo de saúde por exemplo, quem são as pessoas que tem acesso a transplante? E ao Sistema Único de Saúde com a sua complexidade? E ao mesmo tempo, quem é que compõe os presídios? As cadeias, as prisões sem julgamentos…”, analisa.

Vale a pena lembrar que, em 2010, 52,4% da população de Belo Horizonte se autodeclarava negra e 47,4% branca.