Sírios veem no Brasil oportunidade de recomeço

Apesar dos 10 mil quilômetros de distância que separam Brasil e Síria, desde o início da crise no país do Oriente Médio, o Brasil vem concedendo refúgio a mais sírios do que os principais portos de destino de refugiados na Europa.Em fevereiro do ano passado o país já havia recebido em torno de 8950 refugiados, sendo 2480 provenientes da Síria. Mesmo sendo um país que não está isento da violência, o Brasil  tem sido cogitado como uma grande oportunidade de recomeço para essas pessoas.

A guerra na Síria, que é considerada um dos maiores desastres humanitários da atualidade pela ONU, ocorre desde o ano de 2011 devido á uma série de eclosões de protestos que iniciaram-se por lá. As principais reinvindicações eram dos altos índices de desemprego, corrupção e falta de liberdade política devido ao regime político aplicado  Bashar-Al-Assad.  O presidente sírio, em resposta às manifestações, convocou o exército para reprimir os manifestantes, o resultado foram ações extremamente violentas . Diante desse cenário, a oposição se armou e definiu ações contra as forças de segurança. Tais fatos geraram caos no país. Cidades foram completamente destruídas, cidadãos ficaram gravemente feridos e houveram muitas mortes, aproximadamente 511.000 de acordo com o balanço divulgado pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos. Com medo de serem também alvos dessa tragédia, muitos sírios começaram a abandonar o país.

(Ato Solidário “Paz na Síria”- Praça da Liberdade BH)

A estudante de Engenharia Química da FUMEC Paveolla, que prefere ter seu sobrenome preservado é uma das várias cidadãs sírias que viu no Brasil uma oportunidade para recomeçar a vida. Junto com sua mãe, seu pai, sua irmã e seu irmão, veio para o Brasil há 4 anos e 3 meses atrás. A jovem de 19 anos, que morava com sua família na cidade de Lattakia, na Siria,  afirma que sua cidade era uma das poucas que ainda não tinha sido totalmente destruída pelos conflitos.  “Sempre ouvíamos as ameaças de que iriam invadir, destruir tudo. A maioria das pessoas é a favor do presidente, tipo 90% das pessoas, e eles ficavam falando essas coisas, aí ficamos com medo realmente, e queríamos sair antes que acontecesse alguma coisa lá que impedisse a nossa saída. Então resolvemos procurar uma maneira de sair de lá”, conta.

Paveolla afirma que, na época em que ainda estavam em Lattakia, a guerra era mais psicológica do que física. Ocorreram vários bombardeios e explosões, mas nada comparado à Aleppo e Damasco.  “Alguns lugares não tem mais casas nem prédios, tudo foi destruído. A minha cidade agora está cheia de pessoas que habitavam outras cidades próximas, que foram destruídas, e como essas pessoas não conseguem mais sair do país, elas vão pra lá tentar achar algum lugar para se abrigar”.

Além de terem se mudado por causa do receio de a guerra atingir sua cidade, outro motivo foi a perseguição religiosa. Paveolla e sua família são cristãos, mais especificamente protestantes. A religião cristã não era aceita em seu país, que tem sua maioria adepta ao islamismo. O Brasil, por ser um país laico é visto como uma porta aberta para essas pessoas terem liberdade de expressão.  “O Brasil foi praticamente nossa única opção. Primeiramente pensamos em ir para a Europa. Tentamos ir para a Suíça, até preparamos tudo, porque meu pai tinha um amigo que morava lá e ele prometeu nos ajudar. Meu pai pediu auxílio pra ele ajudar a conseguir o nosso visto, deu uma quantia em dinheiro à ele por isso, mas ele nos enganou, pegou nosso dinheiro e sumiu. Acabamos ficando sem dinheiro para procurar outro lugar pra ir e sem o visto.

A outra opção que tínhamos era viajar pelo mar ou atravessando as fronteiras ilegalmente e isso era muito perigoso, especialmente porque nós somos uma família de 5 pessoas, não ia dar certo, descartamos essa possibilidade rapidamente”. A estudante conta que uma parente que morava na Europa contou a eles sobre a MAIS (Missão em Apoio a Igreja Sofredora) que busca fortalecer a igreja em locais onde ocorre perseguição religiosa e com a ajuda dessa organização eles conseguiram vir para o Brasil em segurança. Além de todo a luta para conseguirem chegar aqui sãos e salvos, ela conta que o governo brasileiro não oferece nenhum tipo de subsídio aos refugiados e nem auxílio direto. “Se não tivéssemos recebido ajuda da igreja, não iríamos conseguir nos estabilizar aqui, íamos ter muita dificuldade. Recebemos ajuda da base missionária que nos recebeu e a atual igreja que frequentamos em BH.”

Com um sorriso no rosto e otimismo nos pensamentos, Paveolla e sua família não perdem as esperanças e não escondem a vontade de voltar para o seu país de origem.   “É nosso país, não dá pra ficar tão longe dele assim. Por enquanto, se tivermos oportunidade de ir até lá, vai ser apenas pra visitar, por causa dessa situação toda da guerra. Mas, caso diminua esse caos e o sofrimento e tiver um pouco de calma, a gente quer voltar pra lá sim.”

Paveolla e sua família em evento solidário em BH (Foto: Paveolla)