Manifestação mostra união da sociedade em defesa da educação

Por Gabriella Lodi e Maria Clara Dias

Com adesivos colados no corpo, cartazes na mão e gritos de justiça, estudantes e trabalhadores se mobilizaram no dia 15 de maio contra os cortes na educação. Em Belo Horizonte, os atos começaram às 8h30 no hall de entrada da Faculdade de Medicina da UFMG, no entorno do campus da saúde. A passeata seguiu o trajeto em direção à Praça da Estação, continuou até a praça Sete de Setembro e terminou na praça Raul Soares, onde os Sindicatos da área da educação estavam reunidos.

“Não é balbúrdia, é reação, é o estudante defendendo a educação”. Esse foi um dos gritos entoados pelos estudantes, ele faz referência à fala que o Ministro da Educação, Abraham Weintraub usou para justificar o corte de verbas. “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas. A lição de casa precisa estar feita: publicação científica, avaliações em dia, estar bem no ranking”. O grito também faz menção ao principal motivo da mobilização: a defesa à educação.

No final de abril,  o governo anunciou o contingenciamento no orçamento de 2019 para todas as universidades e institutos federais e a suspensão de bolsas estudantis. Isabela Levis, pós doutoranda da Faculdade de Medicina da UFMG, estava presente na manifestação e explica que se sentiu atingida pela medida governamental: “São mais de 64 milhões de reais bloqueados que, no nosso caso, corresponde a 36,5% do orçamento. Nós da pesquisa e da educação nos sentimos atingidos, porque sabemos que isso vai influenciar desde a falta de fornecimento de energia elétrica, até a falta de insumos essenciais, de laboratório, salas de aula, pesquisa e para os projetos que a universidade tem.” Ela ainda completa que o ato é uma reação ao governo: “O movimento se organizou através de reuniões, assembleias, redes sociais e hoje a gente está aqui para darmos a resposta nas ruas: não iremos aceitar”.

As universidades federais, nos últimos dois anos, foram alvos de  sucessivos cortes de verbas. Contudo, estudantes e professores presentes na paralisação temem que, com a última medida sancionada, a ciência não sobreviverá, mesmo que a graduação continue. É o que afirma Luisa Grossi, pós graduanda na Escola de Engenharia da UFMG: “95% da pesquisa é financiada pela União, a gente depende desse valor, não só para a infraestrutura, mas para as bolsas que recebemos. As bolsas já estão defasadas há mais de seis anos. O sucateamento da pesquisa está só piorando e esse corte é simplesmente o último ponto mesmo para matar”.

Luisa também destaca a importância do trabalho científico para a sociedade. “Pesquisa não é algo que se você cancelar agora, a gente vai conseguir retomar quando o próximo governo resolver ter o investimento, ela precisa de continuidade e se você destrói isso agora, você tem que começar tudo do zero. Então, dar um corte na pesquisa é parar de investir naquilo que traz retorno: a cada um real que você investe em ciência, é devolvido trinta reais para a sociedade. A gente não vê um país que busca o desenvolvimento e a melhoria da população, não investir em conhecimento ou pesquisa, esse cenário é assustador”.

A falta de diálogo sobre as decisões estabelecidas é um dos principais pontos levantados pelo professor da Escola de Engenharia da UFMG, Ricardo Duarte: “Não sabemos porque que, de uma hora para outra, precisa cortar e cortar de forma geral”. Ele conta que a medida vai atingir além das universidades, toda a sociedade que faz uso dos serviços prestados por ela. “A Faculdade de Medicina da UFMG, por exemplo, tem parceria com o SUS e atende vários pacientes pelo sistema público. Então, é evidente que, com a efetivação dos cortes, não só a universidade será afetada, mas também, a população que depende dos seus atendimentos e pesquisas”.

Essa é uma das maiores preocupações de Silvana Espíndola, professora do curso de Medicina da UFMG. Ela salienta a importância dos serviços que a universidade oferece aos cidadãos em atendimento popular. “Quanto a nossa reivindicação, a gente quer mostrar que o corte, principalmente no campus da saúde e na parte da extensão, afetará a população de modo geral que é atendida. O hospital atende via sistema público, a universidade tem colaboração com o SUS, então na falta de investimento, o atendimento desses pacientes vai ser afetado. A gente continua atendendo essas pessoas, reivindicando que eles continuem sendo sempre atendidos pelo sistema público. É uma função social da universidade.”

Estudantes, professores do ensino público e privado, sindicalistas e trabalhadores, de forma pacífica, marcaram presença em defesa da educação. Dentre os gritos da multidão, um deles fez referência à união dos estudantes e trabalhadores, que naquele momento lutavam pela mesma causa: “A nossa luta unificou, é o estudante junto com o trabalhador”. Pessoas de todas faixas etárias caminhavam juntas e questionavam as prioridades do governo brasileiro. “Que país queremos ser? O país desenvolvido que exporta tecnologia e qualidade em todos os níveis, ou um país subalterno, subordinado? Eu prefiro a primeira hipótese”, manifesta Edimilson Leite, pesquisador e doutor pelo CEFET-MG.

“Sem educação você não tem desenvolvimento, crescimento ou riqueza e, para gerar justiça e igualdade, você precisa ter tudo isso. Então, faz parte de uma lógica, de um estado justo e igualitário, investir naquilo que fundamenta crescimento, desenvolvimento. Eu estou aqui por isso, não se corta nunca na educação. Educação você tem que colocar mais dinheiro, cada vez mais”, afirma Ângela Spesiali Aroeira, professora de psicologia da Faculdade Ciências Médicas. Assim como Ângela, cerca de 250 mil pessoas, em Belo Horizonte, acreditam no papel transformador da educação e foram às ruas para mostrar que esse direito universal é imprescindível ao desenvolvimento social e econômico. A UNE – União Nacional dos Estudantes, anunciou que no dia 30 de maio o movimento continua e será ainda maior que antes.

Confira as fotos da manifestação abaixo:

Foto: Gabriella Lodi
Isabela Levis, Edimilson Leite, Ricardo Duarte e Silvana Espíndola com cartazes em defesa da pesquisa cientifica universitária e com um teste de tuberculose desenvolvido pela UFMG como exemplo da sua importância. O teste foi feito com metade do orçamento que seria utilizado no exterior e em parceria com a plast lab do Rio de Janeiro. Foto: Gabriella Lodi
Foto: Maria Clara Dias
Foto: Gabriella Lodi
Foto: Gabriella Lodi
Foto: Gabriella Lodi
Foto: Maria Clara Dias
Foto: Maria Clara Dias
Foto: Maria Clara Dias
Foto: Maria Clara Dias
Foto: Maria Clara Dias

 

Roteiro Alternativo

Assuntos comuns, ângulos diferentes. Vem com a gente!