Julio Secchin: do indie funk à psicanálise em uma melodia

Crédito: Raul Aragão

“A cultura é o que vai salvar o Brasil”, assim entende Julio Secchin, cantor, compositor, diretor e produtor musical. Novo de carreira, Secchin lançou seu primeiro álbum em 2018. Com um som muito jovem e brasileiro, o músico compreende o papel crucial que a produção artística assume nos dias de hoje no Brasil e no mundo.

A mistura de ritmos é característica de suas músicas, um quê de samba, mpb, com batidas de funk e pegada alternativa. Ainda que tente encaixar seu som em uma categoria só, seria um gênero híbrido: indie funk. A mistura de dois ritmos tão distintos acabou fazendo total sentido em uma melodia alegre, dançante e muito identitária. Como esperado, as inspirações do cantor são diversas: em seu show canta Caetano Veloso e Kevin o Cris, escuta desde Frank Ocean à Milton Nascimento, e pega um pouco de cada na hora de produzir.

O cantor carioca já estava imerso no mercado da música antes mesmo do lançamento de seu primeiro álbum. Julio Secchin era diretor de videoclipes, e conta como estar nesse meio reacendeu seu sonho de adolescência: “Dirigindo os clipes, eu via os artistas cantando e fiquei com aquela coceirinha, aquela vontade. Voltei para uma coisa que era anterior, da minha adolescência. Eu queria perseguir aquele sonho de me colocar como cantor, colocar minhas músicas pra frente”. Mas não foi se colocando como cantor que Júlio abandonou a direção, continuou produzindo clipes, mas dessa vez era um produto audiovisual cem por cento seu.

Sua carreira na direção não apenas influenciou sua escolha pelo vocal, mas também foi responsável por impulsionar sua trajetória na música. O clipe de “Jovem”, lançado em maio de 2019, atingiu mais de um milhão de visualizações no Youtube. “Com o clipe a coisa começou a andar de uma forma inesperada. Quando eu vi eu tinha um milhão de views, e aí você se pega pensando que a sua música chegou em lugares onde você nunca pisou. E através de Jovem, as pessoas passaram a querer conhecer outras músicas” ele ressalta. 

Ele é quem compõe todas suas músicas, e como um bom (duplamente) canceriano, como canta em Me Acorda Antes de Partir, em suas letras ele dá espaço à vulnerabilidade. Fala de sentimentos como quem rasga o peito, canta dor e canta paixões, canta esperança e desilusões, mas fez questão de não viver isso sozinho: “Se você não se entregar, as pessoas também nao se entregam. A gente tem que metaforicamente sangrar pelos outros, se doar pelos outros. Fazer disso uma experiência coletiva e maravilhosa pra todo mundo”. Se carnaval fosse terapia, seria um show do Julio Secchin.

Suas letras carregam uma sutileza e também genialidade. Sobre seu processo criativo, ele conta seu método: anota todas as coisas que são linguisticamente perspicazes ou interessantes e faz uma compilação de todas. A inspiração vai desde conversas de bar com amigos até noites sozinho em casa. “Escrever Festa de Adeus e Me Acorda Antes de Partir foi quase que uma sessão de análise, eu me vejo tocando a música na minha casa e chorando sozinho porque é um momento em que eu entro em conexão comigo mesmo”, Secchin comenta.

Júlio completou um ano de carreira como cantor nesse mês de setembro, por isso performou apenas seis shows até hoje. A primeira vez tocando fora do Rio de Janeiro foi em Belo Horizonte, neste último sábado (28). O show foi incrivelmente intimista, Julio traz muita proximidade entre artista e plateia. O espaço DO AR recebeu os fãs do artista carioca, que se juntaram na parte inferior da casa, embaixo de uma pequena sacada, onde o gramado se encontra com uma piscina – vazia de água, mas cheia de instrumentos – mais tarde a piscina se encheu também de gente. Além da banda (Eduardo Verdeja e Frederico Santiago), a piscina de poucos metros quadrados foi tomada por belo horizontinos cantando e dançando junto ao artista. 

Secchin ressaltou a importância de valorizar a cultura local, mostrou o quanto arte e música estão interligados. Mas a imagem que ficou ainda mais forte é de um músico que mais do que apoiar as manifestações artísticas, procura quebrar as barreiras entre o artista e o público. Não fosse pela bermuda rosa de lantejoula, não seria possível identificar o cantor em meio as pessoas. A cerveja do público foi compartilhada com a banda, e o sentimento também. Foi todo mundo cantando em coro as ironias da juventude, o encontro no desencontro, a beleza de perder um grande amor, o quanto é doce a vida sem você – faltou ar, mas a plateia pediu bis.

“A cultura é acima de tudo um bote salva-vidas. É um bote salva-vidas porque pode não só resolver o país, mas pode resolver a gente mesmo, dentro de nós. Porque a cultura é a forma da gente se enxergar, da gente ver um ao outro, nas nossas dificuldades e nas nossas alegrias, e o que Brasil precisa acima de tudo é se encontrar nisso. A cultura é o caminho, e sem esse caminho acho que não tem Brasil”. Por um Brasil que se alimente cada vez mais da cultura, e que os novos artistas tenham cada vez mais espaço. E Belo Horizonte não perde por esperar o próximo show de Julio Secchin.