Instituto Todo Black é Power: salão promove a valorização da estética negra como forma de empoderamento e representatividade

Símbolo da representatividade, luta e resistência negra, o Instituto Todo Black é Power (TBP) dá uma nova perspectiva à estética, que é vista como uma ferramenta de empoderamento e ultrapassa os padrões de beleza. O grupo é pioneiro em afroempreendedorismo no Brasil e promove uma gestão humanizada. O que começou em 2014 com 200 reais e uma marca de acessórios, hoje é um conjunto de quatro empresas localizadas na capital mineira, que promovem a valorização estética, cultural e econômica da população negra.

Cristina Fernanda trabalha no Instituto desde 2017 (Foto: Maria Clara Dias)

O empoderamento estético está associado à autoaceitação e à desconstrução de alguns padrões impostos, tanto da fala quanto da forma de enxergar o outro. Cristina Fernanda que ocupa algumas funções administrativas no Instituto, enfatiza a importância da autoestima para desconstruir esses padrões e para lidar com o racismo. “Se você não estiver com uma estima legal, uma ofensa ao seu cabelo, por exemplo, vai te destruir. Você vai chorar horrores e no outro dia, provavelmente, vai correr para alisar o cabelo. Na grande maioria das vezes a gente tenta se encaixar no padrão de ser uma pessoa magra, ter um cabelo liso ou se vestir conforme todo mundo. Entramos nesse padrão e esquecemos do que gostamos.”

Em 2017, pela primeira vez, Cristina foi discriminada pela cor da sua pele em um café de Belo Horizonte, onde foi convidada a se retirar, juntamente com a sua professora de inglês. Ela diz que foi doloroso entender que estava passando por uma situação de racismo e destaca que o Instituto Todo Black é Power foi fundamental para que ela tivesse uma percepção maior dessa realidade. “A gente tem particularidades sim, mas não quer dizer que somos menos. A conscientização da beleza está nisso. E, principalmente, fazer com que as pessoas passem a gostar delas. Muitas mulheres passam por aqui e aprendem o processo de se amarem, de olharem pro espelho e entenderem que o cabelo é bonito, o nariz é bonito, o rosto é bonito. É coisa da nossa cultura, da nossa raça e a gente tem que gostar disso para que outras pessoas gostem também.”

Clara Inácio, coordenadora do AfroShop e professora do curso de tranças (Foto: Maria Clara Dias)

O mercado de trabalho é seletivo. Mulheres apresentam maiores dificuldades de ingresso e para as que são negras, esse processo é ainda mais difícil. Por isso, a prioridade do Instituto Todo Black é Power é dar espaço a essas mulheres negras, que muitas vezes tiveram experiências difíceis, com pouca ou nenhuma condição digna de trabalho, além de carregarem cargas de racismo e agressões. O ambiente de trabalho majoritariamente feminino contribui para a autoestima e segurança profissional da equipe e esse fator é essencial para que as funcionárias possam transmitir o objetivo central do Instituto que é a valorização da estética negra e a autoaceitação. As clientes dizem que sempre aprendem algo novo após frequentarem o espaço. Ocorre um engrandecimento mútuo, por parte de quem oferece o serviço e de quem o recebe.

Assim como existe a desconstrução do significado convencional de estética, existe também uma discussão em torno da autoestima. Para Clara Inácio, coordenadora do AfroShop e professora do curso de trança na Escola Todo Black é Power, autoestima vai além da beleza estética. Ela representa a capacidade das pessoas se sentirem seguras no âmbito profissional, na sociedade e em todos os lugares em que ocupam espaço. Além disso, Clara enxerga a estética negra como sendo um estímulo para a construção da autoestima e evidencia a sua importância no combate ao racismo. “Nós ressaltarmos a nossa beleza e acreditarmos na nossa naturalidade é muito importante, porque gosto é uma construção social. O que é bonito é uma construção social. Quando olhamos no espelho e nos reconhecemos, nos sentimos bem na nossa pele, isso é algo que já estamos combatendo dentro de nós.”

Afroempreendedorismo feito por mulheres

Vitrine do AfroShop, a quarta empresa do grupo, localizado na Rua da Bahia 319, Centro de BH (Foto: Fabíola Duarte)

O Instituto TBP foi fundado por Dandara Elias, com o objetivo de valorizar a mulher negra e de ser um estabelecimento em que outros afroempreendedores tenham espaço para vender suas mercadorias. Com essa iniciativa, o público negro passa a encontrar produtos destinados a eles que não são encontrados com facilidade no mercado. Hoje, o Instituto é composto pelo salão de beleza, pelo AfroShop, que é uma loja de diversos produtos totalmente dedicados ao público negro, pela Escola Todo Black é Power, que ensina os alunos a cuidarem dos cabelos crespos e cacheados sem a utilização de química e, por fim, pela linha de produtos para cabelos, chamada “Respeita o Black” e a infantil “Respeita o Blackinho”. A maior parte da equipe é composta por mulheres negras e, no geral, totalizam 25 funcionários.

Com uma gestão empática e humanizada, a escuta e o diálogo são valorizados no dia a dia da empresa, fator que promove segurança profissional aos funcionários. Cristina, que já ocupou cargos em grandes empresas, diz se sentir aliviada por não ter que se provar profissionalmente. “Conversar com o outro de igual para igual faz uma diferença gigantesca na sua autoestima e até na questão profissional. Hoje eu tenho uma gestora mulher e trabalho com mulheres. Eu consigo conversar com elas sem me alterar, não só por sermos mulheres, mas por sabermos a dificuldade da inserção da mulher no mercado de trabalho.” E continua: “Sou mulher, sou negra e na maioria das vezes trabalhei com homens. É difícil, eles te escutarem. Em outros lugares eu também era uma boa profissional, mas eu tinha que brigar, gritar, tinha que me provar todos os dias. Aqui tem a escuta e a confiança. Ninguém se sente superior, é uma troca”.

Para Adriana Rodrigues, integrante da equipe, o diferencial do Instituto Todo Black é Power está na tratativa de Dandara com os funcionários e dos funcionários com os clientes. A iniciativa da fundadora, jovem, mulher e negra, transforma a vida de muitas pessoas. Através das suas empresas, ela tem o poder de mudar a forma que outras mulheres se enxergam, promovendo autoaceitação e empoderamento através da representatividade, da desconstrução de padrões estéticos e da valorização à cultura negra.

Trança e apropriação cultural

Mesmo que comumente tratada como um adereço estético, a trança, especialmente a nagô, carrega consigo uma história que vem da escravidão no Brasil. Nessa época, mulheres embutiam grãos, como arroz e feijão, no cabelo trançado. Esses grãos eram levados para os quilombos e o alimento dos escravos refugiados era garantido. Além disso, através da trança nagô, eram criados mapas na cabeça do homem ou da mulher negra, que indicavam a localização dos quilombos, para que se pudesse fugir da repressão escravocrata. A trança nagô representa um elemento específico da cultura negra, que é historicamente inferiorizada.

Quando um grupo cultural diferente, normalmente dominante, apropria desses elementos específicos, eles perdem a inferioridade e passam a ser vistos como exóticos e eurocêntricos, ganhando valor econômico e social, mas perdendo a sua real essência e significado. No contexto capitalista, a apropriação cultural vai além do desrespeito a outra cultura que, em virtude da imposição de padrões norte-americanos e europeus, é considerada inferior. Pessoas passam a usar esses elementos para obter lucro e esse fenômeno tem sido muito observado nas passarelas do mundo fashion.

A postura do Instituto Todo Black é Power em relação à apropriação cultural, é explicar a história dos elementos apropriados. “O que as meninas tentam fazer é explicar todo o processo. É como se fosse uma aula de história mesmo. Explicar o porquê da trança, porque ela existe e porque muitas pessoas fazem. Não é só um adereço. É muito mais do que isso. Algumas pessoas vão entender, outras não. Com jeito a gente tenta conversar, mas não fechamos as portas para elas.” Explica Cristina.

A temática do salão é totalmente voltada para a cultura afro, desde a música até a decoração. (Foto: Maria Clara Dias)

Juliana de Paula, coordenadora da Escola Todo Black é Power, que oferece cursos que ensinam o cuidado com os cabelos crespos e cacheados, diz que a história e a resistência por trás dos elementos da cultura negra, como a trança, a leva ter um “amor de alma” por esse trabalho. “Não nos importa se você faz uma trança nagô ou outra pessoa faça. Mas pra gente, ela é um simbolismo de luta e resistência.” E completa: “Muitas pessoas têm alegria em dizer que é descendente de europeus e nós temos que ter aquela alegria de dizer ‘Eu sou negra! Sou descendente africana!’, porque a partir do momento que fomos tirados da África para sermos escravizados no Brasil, nós criamos a nossa luta.”

A apropriação cultural é uma forma de tirar a identidade de um grupo. No caso da cultura negra, um elemento anteriormente considerado marginalizado, passa a ganhar espaço quando uma pessoa branca o adota, remetendo a ideia de que se vem do negro é ruim, mas se executado por um branco, aquilo é aceito e aplaudido. Nesse sentido, existir espaços que preservam e incentivam a valorização da cultura afro é fundamental para o combate do racismo e para dar visibilidade à luta dos negros, que são historicamente inferiorizados no Brasil e, mesmo assim, através da resistência, estão conquistando o seu espaço na sociedade, mesmo que ainda haja muita luta pela frente.