Figurinista e empreendedora, Clara mistura moda e carnaval

Se engana quem acredita que o carnaval é só em fevereiro. Clara Andrade vive o brilho, a cor e a fantasia de janeiro a janeiro, através de confecções exclusivas para sua marca, ou nos bastidores das escolas de samba da Sapucaí. Se o assunto é moda criativa, produção autoral, empreendedorismo feminino e acessórios extravagantes, a referência é certa: precisamos falar sobre a Clara. 

Fazendo da moda um meio de se expressar, a mineira se apropria do astral carnavalesco em suas criações. Sempre teve uma ligação especial com a data, sua época preferida é também seu aniversário. Para ela, carnaval é o tempo de ser quem você quiser ser. Um momento de subversão, leveza, deboche, e claro, genuinidade. Sorte a dela, Clara pode trabalhar com o que ama, e não precisa esperar o verão chegar para viver isso. Tanto na sua marca, Maria Flor, ou nos bastidores das escolas de samba, ela está sempre criando e explorando materiais para esse figurino.

Unindo paixão e profissão, a Maria Flor, sua marca de acessórios, nasceu de um hobby. Quando ela estava na faculdade, o carnaval de Belo Horizonte começou a crescer, assim como a demanda por fantasias e adereços. Clara investiu seu talento, passou tardes andando pelo centro da cidade, à procura de diferentes materiais para suas confecções, onde ela prioriza a diversidade de cores. Mas a princípio, suas primas, maiores incentivadoras, eram as únicas “clientes”, não havia pretensão de começar uma marca.

A partir dessa produção incipiente e restrita ao círculo familiar, os excêntricos e coloridos arcos da Maria Flor começaram a fazer sucesso nas ruas. Os foliões, encantados com os acessórios, abordavam a jovem nas ruas, perguntando a origem dos adornos e, prontamente, deixando suas encomendas. Do hobby, aos poucos a empreendedora investiu nesse trabalho e se inseriu no mercado, aprendendo a manipular os materiais na tentativa e no erro, sempre criando. 

A exclusividade é pré requisito de seus adereços, reforçando a ideia de que a moda é subjetiva, individual e expressiva. “Eu sou contra a maré, não trabalho com produção em série. Meus produtos nunca são um igual ao outro, prezo muito por essa individualidade porque entendo que cada um é cada um, assim como meus produtos”, ressalta. 

Para Clara, moda é criação. Ela conta que enxerga seu trabalho como uma produção artística, afinal, é onde projeta seus sentimentos, através de cores espalhafatosas e muita purpurina. A exclusividade dos produtos é mais um ponto que revela seu caráter artístico, uma vez que toda a concepção de seus acessórios, tanto manual quanto criativa, é única, e não massificada. Entretanto, Clara revela que até pouco tempo não enxergava seu trabalho dessa maneira. Antes, enquanto hobby, não via potencial nem expectativa de mercado em seus acessórios

“O jeito de se vestir é o que a gente quer passar. Meus produtos são coloridos porque refletem muito minha personalidade. Para mim, a moda é totalmente uma comunicação”, Clara comenta. A escolha por cores, estampas e misturas não é por acaso. Se vestir é se montar, e apesar de ter traços de timidez em sua personalidade, ela permite essa inversão através da moda. Afirma que quando escolhe uma roupa, certamente é para passar uma mensagem de alegria e vivacidade.

Embora sempre ter tido aptidão para trabalhos manuais e cultivar a criatividade através de um estilo extravagante e colorido, a Moda não foi sua primeira opção no meio acadêmico. Natural de Itaúna, Minas Gerais, veio para Belo Horizonte cursar Direito, mas não se encontrou na profissão e deixou a faculdade em busca de autoconhecimento. Nesse intervalo, ela mergulhou no universo da moda, traçou projeções para o futuro, conheceu melhor seus interesses e se reconheceu nesse meio.

Dessa forma, Clara seguiu seus instintos artísticos. Fez cursos de design de moda antes mesmo de entrar na faculdade. À medida que ia se inserindo nesse meio, as portas se abriam. Conseguiu seu primeiro estágio através de um curso técnico de produção de moda no Senai, antes de começar a graduação. Trabalhou em um desfile no Minas Trend, quando  entendeu que aquilo era o que ela queria para sua vida e prestou o vestibular.

Nos primeiros períodos, conciliou a faculdade com cursos de confecção. Clara conta como esse foi um tempo em que aguçou sua criatividade: “Eu não sabia que existia um preparatório para criação, não sabia que a criatividade poderia ser desenvolvida dessa forma. Então esse foi um dos anos mais importantes da minha trajetória”, ela relata, ao analisar o crescimento profissional e pessoal vivenciado nesse tempo.

Seu Trabalho de Conclusão de Curso foi a grande descoberta do mundo do figurino, universo em que ela mais se identificou. “Eu sempre gostei muito dessa parte over da moda, que não é tão passarela… Antigamente não era, hoje em dia até é. Sempre gostei muito de peruca, modelagens enormes e extravagância”. A chamada “anti-moda”, que não segue tendências, é também uma forma de libertação e subversão, muito relacionada ao figurino e claro, ao carnaval.

Em Minas Gerais, quem opta pela Moda pode enfrentar algumas dificuldades na carreira. Na capital mineira, Clara sentiu falta de espaço para reconhecimento e conhecimento na área, através de professores e cursos. “Corri atrás de profissionais, pedi que me dessem aulas, oportunidade de estágio, entrava em contato até através do instagram. Eu sentia uma necessidade de aprender, e isso foi uma dificuldade enorme que eu tive em BH, porque eu não tive espaço para isso como existe no Rio e em São Paulo”.

Foi nessa procura por cursos que ela descobriu sua pós-graduação, “Figurino em Carnaval”. Se mudou para o Rio de Janeiro para fazer o curso, quando conheceu e foi aluna de diversos carnavalescos das escolas da Sapucaí. “Cada aula eu saia emocionada, eu pegava o ônibus voltando pra casa e ligava pros meus pais para contar minha alegria. Era tomada por uma felicidade e prazer por estar aprendendo tudo aquilo”. A figurinista enxerga sua experiência na pós como um divisor de águas, responsável por moldar quem ela é hoje.

Assim, Clara descobriu o carnaval de uma forma nunca vivida antes. Um carnaval que acontece o ano inteiro, e que carrega um mercado enorme. Começou a fazer estágio em uma pequena escola de samba em Niterói, onde teve o primeiro contato com a bateria, com os passistas, porta bandeira e com a comunidade. Foi também um momento em que conseguiu desenvolver e apropriar com mais técnica seu trabalho na Maria Flor. 

O conhecimento vasto de materiais e a ressignificação deles é sua parte preferida do trabalho. Seu segundo estágio foi na renomada Unidos de Vila Isabel: “Trabalhando com as escolas de samba, aprendi a manipular os materiais, que é o que grande carnavalesco faz. Poder pegar um material, que talvez estava no lixo, e ressignificar, fazer uma alegoria inteira em cima disso”

Sua trajetória no Rio trouxe realização pessoal e profissional, foi onde ela se identificou com a cidade, com o jeito de vestir e viver, do comportamento à cultura. Hoje, Clara tem um atelier na capital carioca, junto de uma amiga, onde o foco é a confecção de figurino, além do trabalho em escolas de samba e para a Maria Flor.

Os adereços de cabeça da Maria Flor são feitos com o mesmo material que ela usa para a Sapucaí. Assim, ela vai cumprindo com o desejo de levar para as pessoas a magia da fantasia, do ser quem você quiser ser, e vestir a persona. Para Clara, carnaval é isso, liberdade de não cumprir tendências, muitas possibilidades e astral para além do samba. Por trás da festa, existe um enredo, historiadores e pesquisadores, que levam enormes referências. “Na Sapucaí é o momento das escolas contarem a história das comunidades e da nossa cultura enquanto brasileiros”, ela acrescenta.

Clara Andrade ressalta a importância da bagagem cultural e histórica da data. “A mensagem que o carnaval passa retrata nossa cultura de forma leve e brincalhona. Nas aulas da pós eu tive professores historiadores, que nos auxiliaram na pesquisa e criação de enredo. Não é só ir ali e fazer bagunça. É uma bagunça que reflete a história do Brasil, e esse carnaval é só nosso”. 

Felizmente, esse carnaval é mesmo só nosso. E que fique o espírito da fantasia, da cultura, da liberdade, da arte e da moda enquanto auto expressão. Afinal,  existe história por trás da bagunça e existe personalidade por trás do figurino. E tem coisa mais bonita do que trocar as máscaras sociais por muita purpurina?