Facebook enfrenta polêmicas relacionadas às “fake news” e privacidade dos usuários

No último dia 30, o jornal O Globo publicou uma reportagem em que dizia que o grupo ativista de direita Movimento Brasil Livre (MBL) usava um aplicativo de publicação automática. O “Voxer” é uma ferramenta que republica conteúdo na timeline de usuários como se tivessem sido postadas por eles próprios. Desse modo, depois de dar autorização, o internauta publicava, automaticamente, pelo menos duas postagens ao dia, aumentando o alcance da página. Em 12 dias, por volta de 400 usuários compartilharam 16 postagens idênticas.

Cerca de duas semanas antes o Facebook já tinha enfrentado outra polêmica envolvendo privacidade. De acordo com publicações do  The New York Times e The Observer, houveram vazamentos de dados pessoais de aproximadamente 50 milhões de usuários da rede social. As informações foram usadas pela empresa de consultoria Cambridge Analytica a fim de traçar perfis psicológicos e atrair votos para a campanha de Donald Trump, em 2016 nos Estados Unidos.

O roubo de dados era feito por meio de um aplicativo que pagava o usuário para responder uma série de perguntas e, em troca, ele autorizaria que o programa tivesse acesso às suas informações pessoais. Além destas informações, o aplicativo também conseguia obter os dados pessoais de toda a lista de amigos do usuário. Com o perfil dos eleitores traçados, a técnica ajudou não só a campanha eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos, como também a campanha para a saída do Reino Unido da União Europeia.

Após queda de cerca de 5% de suas ações na Bolsa de Valores, o Facebook anunciou a suspensão da conta do Cambridge Analytic, além de retirar o aplicativo do ar. O aplicativo Voxer, utilizado pelo MBL, também foi removido. Depois das polêmicas, a rede social anunciou que está atualizando o controle de privacidade e os termos de uso de dados pessoais.

O Facebook esclareceu que tem como objetivo, a partir das novas ferramentas de privacidade, combater as atividades suspeitas na plataforma. Essas decisões são alguns dos passos tomados pela empresa a fim de combater as “fake news” e o fenômeno da pós-verdade, algo prometido por ela após as polêmicas da última eleição presidencial nos Estados Unidos.

O fenômeno da “pós-verdade”

De acordo com o dicionário Oxford, “pós-verdade” é a “circunstância nas quais os fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crença popular”. Ou seja, com a gama de informações disponibilizadas na internet, o usuário pode ser manipulado com notícias falsas ou distorcidas, sem se importar com a veracidade delas.

Uma situação que contribui para esse fenômeno são as chamadas “bolhas virtuais”. Isto é, algumas plataformas da internet possuem algoritmos que reconhecem as principais pesquisas e curtidas de um usuário nas redes sociais, e, desse modo, direcionam os conteúdos de acordo com aquilo que a pessoa mais se identifica. Por exemplo, se alguém que acessa muitos sites com informações sobre política pesquisar sobre um país qualquer na internet, vão aparecer, principalmente, notícias sobre seu governo e conflitos atuais. Enquanto isso, se alguém que lê muito sobre viagens pesquisar o mesmo país, as notícias que irão surgir vão ser, especialmente, sobre turismo, passagens aéreas e hoteis.

Assim, o feed de notícias traz apenas informações que combinam com o ponto de vista do usuário, independente se são verídicas ou não. Isso estimula a polarização ideológica e reduz o alcance de ideias divergentes, o que facilita a disseminação de notícias falsas e manipuladas, uma vez que as pessoas tomam como verdade tudo aquilo que seja conforme suas ideologias.

Agências de fact checking

Um modo de combater as notícias falsas é a criação de agências de checagem de informação. O “fact checking” é uma forma de apurar a veracidade de informações compartilhadas nas redes sociais a partir de um processo jornalístico, utilizando-se de referências oficiais e confrontamento de histórias. Essas agências são compostas por jornalistas que buscam comprovar as principais notícias divulgadas a partir de dados estatísticos e apuração dos fatos.

No Brasil, existem três agências de “fact cheking”: a Agência Lupa, que tem portal hospedado do site da revista Piauí; o Truco, que é uma parceria entre a Agência Pública e o blog Congresso em Foco; e o site Aos Fatos. Desde 2014, o mercado de checagem de fatos já quase triplicou, com mais de 110 empresas dedicadas à esse serviço espalhadas pelo mundo.

Aqui estão algumas dicas de como identificar as “fake news” e evitar compartilhá-las:

  • Não leia apenas o título da matéria
  • Verifique de onde vem a informação e se é de uma fonte renomada e confiável
  • Confira se encontra a mesma informação em algum outros site ou jornal
  • Pesquise sobre a reputação do veículo que compartilhou a notícia
  • Confira se o texto possui erros ortográficos: as reportagens jornalísticas prezam pelo uso correto de normas gramaticais e vocabulário rico
  • Olhe a data de publicação para ter certeza que a notícia não está fora de contexto
  • Procure ler opiniões diferentes da sua e sair da bolha virtual
  • Tome cuidado com o sensacionalismo: matérias que apelam para o emocional normalmente são distorcidas. As reportagens jornalísticas costumam ser objetivas e imparciais.
  • Na dúvida sobre a veracidade da notícia, não compartilhe. Procure fontes oficiais e pesquise mais sobre o assunto antes de passar a informação para frente.