“É preciso não deixar a peteca cair”

Por Thomaz Albano

Isaias Rocha é um típico mineiro. Possui o tom de voz moderado, é cauteloso com as palavras e às vezes fala olhando para baixo ou para os lados. É assim, com esse mineirês evidente, que ele toma conta dos mais de mil alunos da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas. Ao longo de extensos plantões de 12 horas, ele anda de um lado para o outro, sem parar, sempre atento à movimentação nas escadarias e corredores do prédio 13, local em que estudaram boa parte dos jornalistas que atuam na imprensa mineira.  Esse prédio é um dos poucos da universidade que possui vigilância 14 horas por dia. Enquanto tem aluno circulando por lá, sempre há um vigia. É que alguns dos estudantes de comunicação esboçam práticas de rebeldia.

Isaias, como todo adolescente “raiz”*, também já foi, um dia, bem rebelde. Começou a namorar aos 15 anos de idade. Aos 17, foi a um casamento de amigos que pertenciam à mesma igreja que ele. Na festa, se encantou por uma das convidadas, e o encantamento foi recíproco. Saiu da festa decidido a terminar com a namorada que o acompanhava desde os 15 anos. Fato consumado! Em poucos dias já estava de mãos dadas com a nova companheira.

O namoro, desta vez, foi intenso. Após 10 meses regados a muita dopamina, uma das substâncias que sustentam a paixão, o casamento já estava marcado. O que parecia uma brincadeira de adolescente se consolidou no dia 18 de janeiro de 2003. Os preparativos para a grande data teve apoio da família que, assim como Isaias, moravam em Mateus Leme, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Também foi em Mateus Leme que Isaias e sua esposa começaram a vida matrimonial. Moraram, por cerca de dois anos, nos fundos da casa de parentes.

Mesmo sendo um pouco rebelde ou, doidão, como ele se intitula, a responsabilidade sempre esteve presente na vida do então jovem aventureiro. Foi aos 17 anos que Isaias conquistou o primeiro emprego. A carreira dele começou em uma fábrica de fundição de ferro, local de trabalho pesado. Nesse período, foi necessário conciliar o trabalho com os estudos. A permanência na fábrica durou poucos meses, logo ele mudou de emprego.

Isaias conta que após as núpcias, muitas responsabilidades aparecerem. Questionado sobre o porquê de se casar tão jovem, ele, de forma desconcertada, diz que foram vários os motivos, mas só destaca os critérios da religião que frequentava. Isaias sustenta que a doutrina religiosa era forte e, logo em seguida, muda de assunto.

Fato é que ao completar quatro meses de matrimônio, esposo e esposa já esperavam a primeira filha. A bebê nasceu com alguns problemas de saúde, motivo para que o jovem casal buscasse formas de ganhar mais dinheiro e um local mais confortável para morar. Acabaram mudando, em 2005, para Teófilo Otoni, cidade localizada no Vale do Mucuri, em Minas Gerais.

Ao chegar à cidade em que a temperatura média passa dos 30 graus célsius (INMET)*, Isaias começou a trabalhar em uma lanchonete. O salário foi suficiente para pagar o aluguel da casa em que estavam morando, bem como cobria o sustento da família. Mas, poucos meses adiante, ele mudou de emprego. Foi trabalhar em um hipermercado. “O salário era melhor”, conta, sem revelar o montante mensal.

A estadia do casal em Teófilo Otoni durou até 2007, ano da visita do papa Bento XVI ao Brasil. Isaias relata que, ao sair do trabalho no hipermercado, ele recebeu uma quantia razoável em dinheiro, algo suficiente para adquirir um lote em Mateus Leme. Com apoio da família, o empreendimento logo foi comprado. No local, inicialmente, foi construído um barracão de dois cômodos.

Com o novo lar pronto, pai, mãe e filha se mudaram. Estavam, novamente, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Diante da nova realidade geográfica, Isaias passou a trabalhar no setor industrial, com fabricação de plástico. Dois anos depois, nasceu a segunda filha do casal. Motivo de muito orgulho, aliás, as filhas sempre são citadas por Isaias como um dos pilares de sua vida.

De 2009 até 2014, a vida do casal, já amadurecido, seguiu sem grandes novidades. Enquanto isso, obras foram realizadas no barracão, que foi transformado em uma casa, de acordo com os padrões arquitetônicos.  Em 2015, a esposa de Isaias começou a estudar psicologia na faculdade Pitágoras, sediada em Betim, também na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Mas a rotina de estudos, o trabalho e a necessidade de cuidar das filhas obrigou-os a buscarem uma solução que permitisse a jovem continuar estudando, sem deixar as demais obrigações. A alternativa foi mudar para Betim e ficarem mais perto da Instituição de ensino, diminuindo o tempo gasto com deslocamentos.

Para fazer a mudança, o casal vendeu a residência que haviam construído em Mateus Leme e, assim, conseguiram pagar a entrada do apartamento desejado. Após alguns meses na nova residência, Isaias recebeu uma proposta para trabalhar na linha de produção de uma fabrica de cervejas, em Belo Horizonte. Proposta aceita! O novo emprego o estimulou e deu condições financeiras para ele fazer um curso para atuar como segurança. Em 2017, já certificado para a nova profissão, Isaias mandou currículo para a PUC Minas, ao saber que a universidade estava contratando vários profissionais da área de vigilância.

Convocado para o processo seletivo, ele foi aprovado em todas as etapas. Logo, já estava contratado. Ir trabalhar em uma universidade estimulou Isaias a fazer algo que ele se arrepende de não ter feito antes de se casar, que é cursar uma graduação.  Sem tempo a perder, e diante da bolsa de estudos que a universidade em que ele trabalha concede a seus funcionários, ele logo tratou de prestar vestibular. Atualmente está no segundo período do curso de Direito. As aulas são assistidas no campus da universidade em Betim, por ser próximo de casa.

Mas a trajetória do garoto rebelde, que hoje ostenta os 35 anos de idade, está longe de seguir uma linha horizontal. Nas últimas semanas Isaias está participando de processos seletivos para conseguir um segundo trabalho. O objetivo é juntar dinheiro para ir de mala e cuia para Portugal. Se conseguir o novo emprego, vai deixar a graduação. Questionado sobre o porquê de tal desejo, o ele diz que quer estar em um país com mais oportunidades para dar melhores condições de vida às suas filhas.

A viagem, caso dê tudo certo, deve ocorrer em 2019. Inicialmente, ele será o único a embarcar. Enquanto isso não ocorre, com seu mineirês típico, ele observa os jovens estudantes que se rebelam nas escadarias do 13. “É preciso não deixar a peteca cair”, afirma. ***

*O Termo Raiz foi utilizado como sinônimo de tradicional , que segue os padrões das gerações anteriores aos anos 2000.

*Intituto Nacional de Meteorologia

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