Duda Salabert pode se tornar a primeira mulher travesti a disputar uma vaga no Senado

Minas Gerais pode ter a primeira mulher travesti disputando uma das vagas para o Senado. O nome de Duda Salabert, foi inscrito para disputar as prévias para o pleito pelo PSOL.

Ambientalista, professora de literatura a 18 anos e acadêmica de gestão pública, Duda Salabert deve ser a primeira mulher travesti a disputar uma vaga no Senado. Ela também é presidenta da ONG Transvest, que oferece cursos gratuitos para pessoas travestis e transexuais de Belo Horizonte. Confira a entrevista exclusiva, concedida para o R.A:

Quais os desafios você espera enfrentar no Congresso, caso seja eleita?

‘’O desafio caso eu seja eleita é de combater esta velha política, repleta de vícios e também de projetos que são voltados apenas para questões de ordem pessoal, que não se preocupam com a instância social. O maior desafio será de construir uma nova política, aquela que tenha como pauta central questões sociais. A gente não pode partidarizar os Direitos Humanos, os debates ambientalistas, entre outros. Questões ambientais, sociais, educacionais, não devem ser de direita ou esquerda. Isso tem que ser uma política de Estado, independente do partido.’’

 

Qual o tamanho da importância de se ter a primeira candidata mulher travesti a disputar um cargo majoritário no Brasil?

‘’A minha pré-candidatura assume um contorno simbólico. A palavra Senado, em sua etimologia, significa senhor, então é uma casa feita para senhores, tradicionalmente senhores mais velhos. A última eleição, por exemplo, exigia uma idade mínima para pleitear este cargo de 35 anos. Uma mulher travesti disputando esse espaço dá um tempero político, um contorno simbólico muito grande. Além disso, o senador tradicionalmente tem o papel de moralizar a sociedade e um corpo travesti é lido como um corpo imoral, então a idéia é essa: se meu corpo é lido como imoral, é mais um motivo para disputar esse espaço. Nós podemos construir uma nova moral, uma moral de respeito, da diversidade, da preocupação coletiva. As pessoas que fazem parte dos grupos historicamente excluídos desses espaços tem que não só pleitear, mas ocupá-los, para dar ao Congresso brasileiro um retrato da diversidade que é o Brasil. ‘’

 

Os crimes políticos e de ódio vem crescendo no Brasil, como vimos recentemente o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro. Qual é a razão disso para você?

‘’Na verdade eu não acho que há um crescimento no número destes crimes. O que ocorre hoje, é que com as inúmeras ferramentas de comunicação que nós temos acesso, isso facilita a denúncia e aumenta sua dimensão. Os crimes políticos e de ódio são uma mancha na história do Brasil, contra pessoas que tentam ocupar espaços de poder. Faz parte de um projeto de sociedade higienista, que propõe uma assepsia social, que exclui do poder mulheres, pessoas negras, LGBTS. O que nós queremos é tornar a política brasileira mais democrática, mais plural, que traduza a diversidade do brasileiro. A Marielle foi uma das guerreiras políticas que rivalizaram com este projeto atual, ela estava incomodando esta estrutura clássica, tradicional. Ter uma mulher negra, LGBT, de periferia, incomoda muito, porque esse projeto de sociedade que eles construíram em 500 anos de Brasil não tolera diversidade.’’

 

Você trabalha com jovens diariamente. Qual é a mensagem ou ideia mais importante que você transmite para eles?

‘’A mensagem que eu sempre trago para a juventude, é a de que é possível construir uma nova sociedade. Para isso é fundamental que a gente cultive e alimente as utopias. Nós não podemos tolerar o mundo sem utopia, porque ela que nos nutre para a construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais democrática e com mais afeto. Nós não podemos viver em um mundo vazio, sem utopias e ideologias. Esse esvaziamento vai manter a estrutura atual que nós vivemos. Se nós queremos de fato transformar a sociedade, essa transformação passa inicialmente por fomentar uma ideologia ou utopia, acreditando nos nossos sonhos. Temos sempre que olhar para a frente!’’

Foto: Arquivo pessoal