Chega de fiu-fiu! A cultura como forma de protesto

(Divulgação/Chega de Fiu Fiu)

“A cidade foi feita para mulheres?” É com esta deixa, que o documentário Chega de Fiu Fiu se afirma. Dirigido por Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão, o filme trata da história de luta e autoafirmação dentro de um ambiente complexo e conflituoso que são as cidades. “O filme Chega de Fiu Fiu, narra a história de Raquel, Rosa e Teresa, moradoras de três cidades brasileiras, que, por meio de ativismo, arte e poesia resistem e propõem novas formas de (con)viver no espaço público”, revela Fernanda.

Talvez você tenha associado o nome do documentário Chega de Fiu Fiu com a campanha Chega de Fiu Fiu, que em junho de 2013, mobilizou as mulheres brasileiras na luta contra o assédio nas ruas. E esse movimento de união e quebra do silencio, fez com que várias mulheres contassem suas experiências de violência, motivando umas as outras em uma rede de apoio ,usando a fala nas redes sociais como uma ferramenta para lutar contra a cultura machista que existe nas ruas. E foi a partir da campanha, que Fernanda e Amanda, decidiram criar um objeto audiovisual que debata a presença das mulheres nas cidades, e a violência em que estão expostas.

Segundo o site, Think Olga, o documentário foi uma iniciativa coletiva e arrecadou em 65 dias, 60 mil reais com a ajuda de mais de 1200 pessoas, por meio da plataforma crowdfunding catars. Os ingressos para a exibição do documentário, foi feita em cinco cidades brasileiras: São Paulo, Belo Horizonte, Florianópolis, Salvador e Porto Alegre. BH foi a primeira cidade a ter os ingressos esgotados, e nas demais cidades, a venda vai até o dia 13 de maio, sendo a exibição no dia 22.

 Experiência

Amanda e Fernanda, diretoras do Chega de Fiu-Fiu (Divulgação/Chega de Fiu Fiu)

De acordo com Fernanda, o filme traz um viés pouco explorado no debate que é do espaço público e o direito à cidade. É um filme calçado na história de três mulheres que vivem realidades diferentes no Brasil e, cada uma à sua maneira, resiste. “O Chega de Fiu Fiu vem somar às inúmeras campanhas e debates que estão ganhando força desde 2014 e é importante ocupar também o espaço na linguagem audiovisual, ocupar as salas de cinema”, conta.

“Minha experiência enquanto mulher e diretora foi de bastante identificação e transformação em relação a minha percepção do meu corpo no espaço público. Uma das metodologias de filmagem foi o uso de um óculos com câmera escondida que usamos quase como um método performático. Antes de começar as gravações eu usei o óculos por um mês inteiro com a intenção de observar e captar episódios de assédio ao invés de andar na rua na defensiva, cabeça baixa. Essa experiência transformou a percepção do meu corpo no espaço público, porque pude notar como as pessoas se relacionavam com meu corpo direta e indiretamente, os exercícios de poder sob meu corpo e a vulnerabilidade dele no espaço público”, relata a diretora.

Histórias

Convidamos três mulheres para contar um pouco das suas vivências nas cidades,seus medos e desconfortos:

Erika, Fatou e Ilsa relatam suas vivências.

“Andar sozinha a noite é um medo.Se vem um homem perto eu já atravesso a rua porque tenho medo do que ele pode fazer.Quando aparece uma mulher eu fico mais aliviada. Teve uma vez que eu estava indo pra um shopping e parei pra pedir informação. Nisso um moço ouviu,veio atras de mim,falou umas coisas estranhas e me perseguiu até lá.Cheguei no shopping,fiquei perto do segurança e ele sumiu. Quando eu estou andando nas ruas e escuto algum homem mexendo comigo, eu sinto nojo, é um desconforto enorme.” Erika Giovannini, 21 anos.

“Ser mulher já é complicado. Ser mulher negra é duas vezes complicado. Desde criança vivemos com uma super sexualização do nosso corpo. Andar na rua de noite sozinha nem vem a ser uma opção. Já aconteceu situação de eu estar numa festa com minhas amigas e os caras tentarem puxar uma de nós pelo braço. Já cheiraram o cabelo da minha amiga. Em situações como essa eu já empurrei, joguei bebida, joguei até uma garrafa. Pessoas tem que ser respeitadas e muitos homens não tem a noção do ridículo.” Fatoumata Sow, 20 anos

 “Acho que todo mundo já sofreu assédio. A gente ta andando na rua,na maior naturalidade,os homens passam com o carro e gritam alguma coisa idiota. Eu me sinto com raiva,por que eles acham que é só parar o carro,buzinar que a gente vai falar sim? É absurdo. O sentimento é nojo, repulsa”.
Ilsa Martins, 20 anos