Celton: o quadrinista da capital mineira

(Foto: Catarina Ayres)

Terno amarelo e placa na mão, é assim que Lacarmélio vai vendendo suas revistas em quadrinho há 36 anos. Mais conhecido como Celton, nome do personagem principal da revista, o mineiro tem 60 anos e não se arrepende de nenhum dia que se dedicou ao trabalho. Faz das ruas de Belo Horizonte seu escritório, procura uma esquina movimentada e vai anunciando a edição da vez.

Mais que quadrinista, Lacarmélio virou um personagem da cidade. Mas mesmo sempre sendo visto nas ruas, pouca gente o conhece de verdade e isso ele mesmo nota: “Quem me conhece muda de ideia do que pensava antes sobre mim. Primeiro: Sou manoteiro. Segundo, sou fanático pelas revistas, não consigo sair fora disso. Terceiro, não paro de achar que o próximo número vai dar para pagar todas as contas atrasadas, que vai ser um best-seller”.

Mas, ao conhecê-lo, fica óbvio que seu carisma não é só parte da persona que ele incorpora na hora de vender as revistas. Logo que nos encontramos, Celton me recebeu com um abraço, hábito que ele cultiva sempre que conhece alguém, para “quebrar o gelo”, explica. Ao longo da entrevista, vez ou outra perguntava “e você, o que acha disso?”, fez questão de tentar, também, me conhecer.

A atenção que ele dá para os outros também gosta de receber. Considera isso um dos aspectos mais positivos na relação com os leitores. “Essa atenção que você está me dando aqui, eu chamo isso de universo da revista. Eu adoro isso, acho maravilhoso. Atenção, e reconhecimento é tudo. Você se sente melhor quando é acolhido”.

Mas, ainda assim, diz ser do tipo solitário. Gosta de ficar sozinho e se considera “todo errado”. Já foi funcionário público, trabalhou na Secretaria de Obras Públicas, quando ainda era sediada na praça da Liberdade. Pediu demissão e foi seguir seu sonho com os quadrinhos. Viajou até o Rio de Janeiro e São Paulo em busca de editoras, mas não conseguiu nenhum contrato. “É caro ser artista. O artista não tem empresário, não aparece anunciante, não tem uma editora ou um patrocinador pra estar lá para mim o tempo todo, então é difícil”, Lacarmélio ressalta. Mas mesmo depois de todos os apertos que passou, afirma que se sente mais realizado, e não troca isso por nada.

Há 10 anos, Celton tem estudado computação gráfica em 3D para as ilustrações das histórias. Seu objetivo é agilizar a produção, que sempre foi lenta, pois é desenhada a mão e prejudicada pelas vendas, todo os dias ele vai para as ruas. Almeja conseguir publicar uma edição por mês. A revista nunca teve uma assiduidade e, por isso, também nunca teve assinaturas.

Seu último trabalho é o que mais lhe enche de orgulho. Ele está fazendo uma série sobre a Inconfidência Mineira e considera essa a produção de sua vida. Para Lacarmélio, viver o roteiro faz parte do processo, talvez por isso tenha ido a Ouro Preto, antiga Vila Rica, diversas vezes no último ano. Pretende fazer um cenário perfeito, então fotografou tudo para que o 3D cumpra os mínimos detalhes. Durante o trabalho, buscou conhecer cada personagem em seu íntimo, queria entender, por exemplo, como a cabeça de Tiradentes funcionava, e não apenas como ele é retratado pelos livros de História.

“Eu sou palhaço por excelência. A gente está precisando mais de encontrar a gente mesmo. E de rir. Eu  gosto de rir”. Também conta ser apaixonado por escrever roteiro e admite que coloca um pouco de si em seus personagens. No decorrer da conversa, Lacarmélio, ou Celton (depende do que você preferir, como ele mesmo diz), foi revelando cada vez mais sua personalidade marcante. Sofre de insônia e diz que vive preocupado. Gosta da história do Patinho Feio e já pensou em se intitular patinho feio, como apelido para a revista.

“Eu não consigo ter um emprego normal. Simplesmente ir pro trabalho e fazer tudo que o patrão manda, voltar pra casa e saber que eu ganho bem ou mal. Não adianta, eu não consigo. Isso é ser artista? É ser deslocado? Não sei. Essa parte eu to perdido, não vou encontrar a resposta. Porque que eu continuo? Porque eu gosto”. Mesmo perdido nesse aspecto, Lacarmélio encontrou seu lugar no mundo. E Belo Horizonte tem a sorte de ser retratada de forma tão especial em suas histórias.

Cidade Invisível

O quadro “Cidade Invisível” propõe contar sobre lugares e pessoas que, todos os dias, passam diante dos nossos olhos sem que conheçamos suas histórias. Os jornalistas buscarão os personagens nas ruas, e estarão abertos para sugestões de casos inspiradores, surpreendentes, chocantes, e também comuns. Ser alguém conhecido não é um pré requisito para se tornar um personagem do quadro: a ideia é buscar histórias de pessoas que podem cruzar com você no cotidiano. Desde médicos, professores, músicos, políticos, estudantes, desempregados… O que importa é o que cada um tem de melhor pra mostrar para o público.