Bharbixas : luta contra o preconceito com muita bola no pé

(Reprodução/Facebook)

O dia 28 de Junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTQ, é a data celebrada mundialmente na qual gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, transgêneros e intersexuais se reúnem para comemorar, reforçar sua identidade e princialmente levantar a bandeira do respeito, da tolerância e da resistência das diversas formas de opressão que sofrem diariamente. Além disso, 28 de junho de 2017, foi o dia em que um grupo de gays belo-horizontinos fizeram a primeira partida de futebol de um clube que une muita bola no pé e a luta por espaço na modalidade, os Bharbixas.

Rafael Marçal,Gustavo Mendes,Lucas Mapa e Leonardo Machado são os fundadores do time e tiveram a ideia a partir de outros clubes de homens gays do Brasil. Segundo Rafael, a primeira pelada foi um sucesso. Muitas pessoas abraçaram a causa e sentiram que o time era uma ótima oportunidade para a quebra do paradigma de que homens gays não são bons jogadores. A partir daí, os Bharbixas passaram a realizar treinos abertos aos domingos, aos quais qualquer pessoa é bem-vinda, independente de sua orientação sexual ou identidade de gênero.  E é isso que atraiu Marcos Henrique para o time,” é a cara do Brasil;tem negro, branco, gay, hétero, gordo, magro, aquele que dá pinta e aquele que parece ser o mais machão, mas não é nada.” Marcos afirma que se sentiu muito acolhido pelo time e que a maior importância dos jogos é mostrar que gay não é sinônimo de superficialidade e que eles sabem jogar muita bola.

Segundo Rafael, quem patrocina o time são os próprios jogadores. “Quem financia o time somos todos nós. Cobramos quinze reais para o treino aberto e temos apoio da Arena Belo Vale em Santa Luzia. ” Além disso, o time vende produtos como camisas e canecas, e o dinheiro é destinado para pagar viagens e equipamentos”, conta.

Com o crescimento do time, surgiu a oportunidade de participar do Champions Ligay, o Campeonato Brasileiro de Futebol Gay. A primeira realização do torneio foi no Rio de Janeiro e reuniu de oito equipes de Florianópolis, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre e do Rio de Janeiro. Os Bharbixas sofreram diversas formas de preconceito no campeonato, pois muitos duvidaram da capacidade deles enquanto jogadores. “Até dentro do mundo gay a gente sofre preconceito por ser afeminado. Muitos falam ‘ pode ser gay, mas não precisa ser assim. Ou é tão bonito, mas não precisa ser mulherzinha’. Por nosso time ser o mais afeminado do campeonato, muitos duvidavam que jogamos bola bem.”

Bharbixas no ano anterior, com a taça de campeões da 1ª Champions Ligay. (Reprodução/Facebook)

Mesmo com todo esse preconceito, os Bharbixas não tinham dúvidas de que eles sabiam jogar futebol. O resultado disso não podia ter sido diferente. Eles ganharam a Champions Ligay de 2017 no Rio de Janeiro. “Foi muito emocionante, sofrido, mas ganhamos nos pênaltis. Um dos momentos mais importantes da minha vida foi mágico. A gente usa salto alto, mas tira pra botar a chuteira” , conta Rodrigo. Outro jogador que estava presente, o Rafael, conta que assim que os Bharbixas fizeram o gol da vitória, em coro eles gritaram  ‘Afeminadas! Afeminadas!’ ” Porque a gente é afeminada sim, a gente joga futebol e ganha .” Este ano, os Bharbixas vão para sua segunda disputa, no Rio Grande do Sul em abril.

Todavia, os atletas do Bharbixas, afirmam que sofrem muito preconceito por pessoas que acreditam que eles ocupam um lugar que não pertencem a eles. “Em um dia de treino aberto, estava tendo também um aniversário de uma criança no local. Quando sentamos à mesa, eu percebi que as pessoas que estavam perto, levantavam. Aquilo me marcou muito. Eu vi que eles achavam que estávamos em um lugar que não era nosso”, relata Rodrigo. Já Rafael afirma que “a gente sofre preconceitos diários por isso. As pessoas não percebem que se fosse tudo muito tranquilo a gente estaria jogando no futebol tradicional. Às vezes a gente precisa segregar para que eles vejam que não tem nada de mais gays no futebol. Se precisamos separar é para conseguir inclusão e porque não somos aceitos em qualquer espaço”.

Fabíula de Araujo, técnica dos Bharbixas, conta que a escolha de ser técnica do time foi a de abraçar uma causa que ela considera sua. “Quando um dos meninos me procurou pra falar sobre o clube, eu considerei que seria uma experiência extremamente rica. Não somente em relação ao esporte em si, mas porque a equipe dos Bharbixas representa uma causa muito grande. ” Segundo Fabíula, o futebol é um meio muito machista, mas  a importância do time é justamente mostrar que não importa o sexo ou a orientação sexual e  sim a vontade de jogar. “Os Bharbixas vêm para bater todo e qualquer tipo de preconceito em relação á modalidade. O envolvimento com os meninos foi me mostrando que foi uma escolha super acertada. Eles jogam e mostram que podemos jogar bola sem briga, sem bater e incluindo as pessoas. Eles vieram sem medo”, finaliza.

Em novembro de 2019, BH será a anfitriã da Champions Ligay . “Desde já estamos começando a organizar o evento,para trazer os times do Brasil e mostrar a famosa receptividade mineira. Uma antecipação que nos ajuda a realizar um evento inesquecível tanto para os convidados, quanto para o time e o público belo-horizontino. Além do mais, movimenta o comércio local ”, relata Leonardo Machado, um dos fundadores dos Bharbixas.