Bar de região nobre de BH é criticado por atitude em caso de assédio

Foto: Celso Lamounier/Roteiro Alternativo

Na noite do último sábado (27), a atitude de alguns clientes do bar “Tizé Bar e Butequim”, localizado na região Centro-Sul de Belo Horizonte, gerou insatisfação em três mulheres que também estavam no local. Segundo uma delas, que é estudante de direito e tem 20 anos, dois homens mais velhos, que estavam em uma mesa próxima, assediaram a ela e suas amigas. E, segundo as jovens, a atitude dos funcionários do bar ao serem informados sobre o ocorrido, não foi adequada.

A estudante afirmou que os olhares dos homens já incomodavam desde o momento em que elas chegaram ao local. Mas quando o garçom as direcionou para a mesa, os homens disseram: “venham sentar aqui”, apontando para o colo.

Dois homens de 60 anos, aproximadamente, começaram a nos encarar e nos oferecer bebidas. Minha amiga teve que subir o decote para evitar os olhares e ficamos claramente incomodadas, até o momento em que eu disse: “vocês poderiam ter um pouco de noção, por favor?”, afirmou a estudante.

Ainda segundo a jovem, os homens foram até uma mesa próxima, o que gerou incômodo também nas outras clientes, que foram embora do local. Depois, um deles se dirigiu até uma das amigas da estudante, colocando uma das mãos nos seus ombros.

Eu falei: ‘você vai parar ou eu vou chamar o gerente? Porque duas meninas já foram embora por sua causa’. E ele retrucou dizendo que eu poderia chamar quem eu quisesse, porque ele era conhecido ali e tinha poder ali no bar, que eu estava denegrindo a imagem dele. Chamei o garçom e ele disse: ‘ele só esta brincando, relaxa!’.”

Um dos momentos que mais geraram indignação, segundo a jovem, é que ao envolver o gerente do bar na situação, um dos homens se dirigiu novamente às jovens, chorando, e afirmou que elas teriam acabado com a noite dele. Propôs que eles pedissem um champagne para comemorarem, juntos, o pedido de desculpas.

Este relato foi publicado no perfil da estudante no Facebook.

Os funcionários não tiveram nenhuma conduta para amparar a gente, de qualquer modo. A gente falou com o garçom e ele falou que era apenas uma brincadeira”, afirmou a estudante para o Roteiro Alternativo.

Os homens envolvidos no caso não foram encontrados para se pronunciarem.

A resposta do Bar

Também via Facebook, o Tizé Bar e Butequim se pronunciou sobre o caso. A página oficial do bar, através de comentário na publicação da jovem, enfatizou o respeito que tem pelas mulheres e recomendou que casos deste tipo sejam denunciados:

 

Um estabelecimento pode responder judicialmente por não intervir em casos de assédio?

O Roteiro Alternativo ouviu uma advogada que trabalha diretamente com a Lei Maria da Penha. Segundo ela, de acordo com o relato da jovem, o fato não é classificado como crime. A profissional ainda explica que, em relação à intervenção dos funcionários na situação, não existe uma lei específica que torne o estabelecimento responsável por um assédio cometido por terceiros. Cada caso deve ser analisado separadamente, e em casos como esse, o bar não tem que se responsabilizar. “É muito delicado, mas não deixa de ser assédio”, diz a advogada, que preferiu não se identificar. “O bar assume uma postura mais ética do que obrigatoriamente judicial”. O recomendado para quem sofre o assédio, é que se chame a polícia e faça um B.O. no momento e no local do ocorrido.

O estabelecimento deve intervir? Qual seria a intervenção ideal?

O Roteiro Alternativo conversou com a Lorena Viegas, formada em Relações Públicas, e Pedro Vaz Perez, formado em Jornalismo, ambos professores do curso de Relações Públicas, da PUC Minas. Eles explicaram qual seria a forma adequada com que o gerente e os funcionários de um bar devem agir em um caso de assédio, como o ocorrido no Tizé.

A melhor atitude está sempre na prevenção, no preparo da equipe para o enfrentamento, rápido e respeitoso, a situações como essa, que infelizmente são tão comuns”, afirmou Lorena.

Pedro elogiou a postura da página oficial de ter respondido rapidamente via Facebook a estudante, e de ter pedido desculpas pelo caso. Mas condenou a forma “burocrática” da resposta, e classificou como inadequado o fato de que a intervenção do bar só ocorreu nas redes sociais, depois que o nome da empresa foi exposto:

“O problema todo é que a comunicação não pode se restringir apenas à ponta do iceberg, ou se restringir apenas ao momento em que alguém faz uma reclamação nas redes sociais. O departamento de comunicação e os donos do bar junto aos seus assessores, deveriam investir em um treinamento para todo o seu quadro de funcionários – garçons, gerentes, faxineiros – todo mundo que tem algum tipo de contato com o público. Muitas vezes, eu já vi mulheres precisarem pedir ajuda no bar, e o bar falar: ‘deixa pra lá, isso foi só uma cantada’, e releva, pelo medo de peitar algum cliente. A comunicação deve ser feita de maneira integrada e abrangente, para atacar o problema na sua raiz. Junto com o público, no momento da confusão, pra evitar inclusive que a demanda chegue nas redes sociais. Agora, quando a demanda chegar, tem que tratar sempre com muita atenção, e de maneira sincera, não de maneira burocrática só pra tapar um buraco ali”, explicou Pedro.

(Colaboração: Alexa Simon e Manuela Mourão)


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Celso Lamounier

É estudante de Jornalismo e Relações Públicas. Idealizador do projeto e membro fundador, atua como repórter, editor e integra a diretoria executiva.