Baiano: o vendedor que não gosta de água de coco

José da Silva Domingos trabalha na Avenida dos Andradas há quase três décadas (Foto: Catarina Ayres)

Baiano é vendedor de coco e figura conhecida para quem corre na pista de cooper da Avenida dos Andradas, em Belo Horizonte. José da Silva Domingos trabalha naquele ponto há 28 anos e assume a identidade de Baiano, embora seja natural de Recife, Pernambuco. O apelido é esse porque as pessoas costumam associar o sotaque nordestino à Bahia. Nessas quase três décadas, ele já se casou, já se divorciou,  mas continua sempre ali, para o coco.

A icônica kombi estacionada próxima a pista de cooper é parada obrigatória para os frequentadores do local (Foto: Catarina Ayres)

Sua kombi, estacionada na Avenida dos Andradas, ao lado da pista de cooper, tem os dizeres “água de coco do Baiano” e acompanha mesinhas e cadeiras, porque muitos que passam por lá param para sentar e conversar com o vendedor. O rádio também é característico daquele cantinho, tocando música para todos os gostos. Baiano tem um pen drive democrático, toca de tudo.

O vendedor sempre trabalhou em beira de praia, mas agora faz das serras mineiras seu novo mar. Ele diz que o que o segura em Belo Horizonte é a Andradas, se não fosse por aquela pista de cooper ele provavelmente estaria no Nordeste. “Já faz tanto tempo que eu tô aqui na Andradas que ela cria lodo. Onde você cria lodo, as pessoas têm mais confiança, por ser aquela tradição de tantos anos. Gente pequenininha, que vinha aqui com 10 anos, no período que eu comecei (há 28 anos atrás), e hoje volta com 30 e poucos anos, trazendo filhos deles”

Baiano já viu muita coisa acontecer por ali. Já viu perseguição de polícia e ladrão, já viu tiroteio, já viu gente pular do viaduto, viu o surgimento de açougues e sacolões, viu a arborização da pista, viu a construção das Torres Gêmeas e viu gente “encontrar” namoro. No meio tempo em que contava isso, Baiano, com a mesma tranquilidade de quem contava um caso, disse: “olha, agorinha mesmo está tendo um assalto, [aponta] ali duas moças correndo atrás do rapaz.” Muita coisa mudou em 28 anos, mas o recifense continua lá.

Baiano conta que tem cliente “cadastrado”, que já deixa pago, quando chega é só pegar o coco, e clientes que vão correr e deixam com ele o celular, carteira, chave do carro…  “Mas é um cadastro que eu nem sei o nome deles e eles sabem o meu”, observou o vendedor.

De avental azul, boné e óculos escuros, Baiano passa o dia na Andradas. Ele, que chega às 6hrs da manhã e vai embora às 21hrs, considera que mora ali mesmo. Isso porque passa mais tempo no trabalho do que em casa e, para o vendedor, onde você passa mais tempo é onde você mora. “Eu moro aqui e trabalho em casa.”

Quando questionado se sente saudade de trabalhar na praia, Baiano responde que sim, contudo, diz que quando viaja para sua casa em São José da Coroa Grande, Pernambuco, pensa na pista de cooper. “Eu fico ali tomando aquele ventinho e vendo aquelas lanchas e fico imaginando: como é que tá aquela Andradas?”, conta sorrindo.

O vendedor ainda confessa que mesmo quando está curtindo as praias nordestinas, nunca toma água de coco, porque não gosta. Apesar disso, garante que a sua é a melhor e mais doce de toda BH.

José da Silva Domingos frequentou a escola até a sexta série do primário, depois disso, teve que sair pra trabalhar e ajudar em casa. “Por eu ser lá do Nordeste e não ter um estudo, não tem nada melhor do que sala de aula o dia todo, no meio da rua. Costuma ensinar muito mais do que aquilo que tá nos livros”. Assim, Baiano conquistou seu espaço em meio aos mineiros, aprende um tanto e nos ensina também.

Cidade Invisível

O quadro “Cidade Invisível” propõe contar sobre lugares e pessoas que, todos os dias, passam diante dos nossos olhos sem que conheçamos suas histórias. Os jornalistas buscarão os personagens nas ruas, e estarão abertos para sugestões de casos inspiradores, surpreendentes, chocantes, e também comuns. Ser alguém conhecido não é um pré requisito para se tornar um personagem do quadro: a ideia é buscar histórias de pessoas que podem cruzar com você no cotidiano. Desde médicos, professores, músicos, políticos, estudantes, desempregados… O que importa é o que cada um tem de melhor pra mostrar para o público.