Bahia e o futebol além das quatro linhas

Divulgação / Mineirão

No dia 1º de novembro, o Museu Brasileiro de Futebol – portão G2 do Mineirão –, sediou um bate papo com o coordenador do núcleo de ações afirmativas do Esporte Clube Bahia, Tiago César. Com entrada gratuita e inscrições pelo site do estádio, o evento que buscava falar sobre inclusão no futebol, teve a presença de 80 pessoas e dessas, mais de 50% eram mulheres.

 A missão do núcleo é enfrentar temas importantes, mas pouco debatidos no cenário do futebol, como o combate à homofobia, ao machismo, ao racismo e à intolerância religiosa, além de incentivar a presença de deficientes nos estádios. “A gente vê que o futebol passa a ser um ambiente de debate da sociedade, de enfrentamento às lutas dos grupos sociais que precisam de vozes e o futebol, claro, deve ser encarado como um elemento de transformação da sociedade. Por que não dizer que esse novo futebol precisa se implantar? ”, comenta o coordenador.

Tudo começou em janeiro de 2018, quando um homem que passeava pela capital da Bahia publicou: “3 dias turistando em Salvador, sem brincadeira, já vi umas 40 pessoas usando a blusa do Bahia e só dois do Vitória. A rivalidade é real ou existe só um time na cidade?”. O post teve a resposta de um torcedor do Vitória que disse: “Você viu um vendedor de picolé, um limpador de para-brisa e um sinaleiro, por isso viu tantos”. Mediante esta situação, o Bahia levou várias camisas para um sinal próximo ao shopping Iguatemi e distribuiu para várias pessoas. “Gabriel vende picolé nos ônibus que vão passando, Elber limpa para-brisa dos motoristas que aguardam na sinaleira em frente ao shopping. Eles orgulham a maior e mais diversificada torcida do Nordeste”, respondeu o clube.

Depois do ocorrido, o núcleo começou a projetar várias ações no sentido de inclusão. Criou o “Bermuda e Camiseta”, um plano popular, validado mediante comprovação de renda, no valor de R$49,00 ao mês. O torcedor se torna sócio, pode votar e ser votado, ir a qualquer setor do estádio e ainda, depois de doze mensalidades pagas, ganha uma camisa oficial do clube. Criou-se também, a camisa popular, que tem o valor de R$99,00.

“Temos uma torcida muito heterogênea, em questões sociais, raciais e religiosas. O que a gente quis foi passar uma mensagem para a nossa torcida. Dizendo que ali todos eram bem-vindos, que o Bahia precisava da união de todos e que iria cada vez mais lutar contra realidades que no futebol são históricas, mas que nunca ninguém tinha partido para se manifestar”, comenta Guilherme Bellintani, Presidente do Clube, após ser questionado do porquê de ter implantado o núcleo em sua gestão.

A primeira campanha do núcleo foi em março do mesmo ano de instauração. Para aproveitar o dia internacional das mulheres, o clube fez um questionário, a fim de saber sobre a vivência das mulheres nos estádios, abordando sobre assédio e conforto. Com pouco mais de 1.200 respostas, o clube conseguiu avaliar que 43% das mulheres nunca foram ao estádio sozinhas. Outro resultado, indicou que 37,6% das mulheres têm receio de ir ao estádio por medo de sofrerem discriminação, assédio ou serem violentadas. A fim de manter a segurança das mulheres e tornar o ambiente mais agradável a elas, o Bahia fez uma parceria com a polícia militar e instaurou a “Ronda Maria da Penha”, composta por oficiais do sexo feminino, na Arena Fonte Nova.

Todos os meses o clube faz uma campanha diferente, voltada para uma das narrativas que ele propõe. “Levante Bandeira”, para o combate à homofobia, “Demarcação já” abordando a questão dos indígenas e “Novembro Negro”, quando jogadores entraram em campo usando uniformes que tinham nomes como de Zumbi dos Palmares, Milton Santos, Dandara e outros negros que fizeram parte do clube também, são alguns dos exemplos.

Questionado sobre as ações do Bahia, o técnico Roger Machado se diz feliz pertencendo a esse momento de redemocratização do clube. “Usar o futebol como ferramenta é obrigação do esporte. Para mim, futebol não é fim, ele é meio e nós temos o dever de usá-lo da forma adequada”, comenta. Douglas Friedrich, goleiro do clube, se sente orgulhoso de fazer parte de um clube que assume seu compromisso diante da comunidade. “Através da paixão, das barreiras que o futebol quebra, a gente consegue levar mensagens para a nossa sociedade e também, acredito que o Bahia tem incentivado e estimulado outras equipes a se posicionarem”, comenta o goleiro.

Recentemente, a ação de outubro de 2019, fez sucesso quando o time jogou com a camisa tricolor com várias manchas pretas, representando o vazamento de óleo no nordeste brasileiro. No evento de sábado, o Mineirão foi presenteado com uma camisa dessa campanha para colocar em exibição no museu. 

“Gostei muito do bate papo, abordou temas que no esporte são esquecidos. O Bahia vem mostrando que não é só futebol e que um clube pode fazer muito mais para seus torcedores e para a população em geral”, relata Higor Fernandes, estudante que participou do bate papo. Ao final, Tiago distribuiu algumas blusas, que retratam as campanhas que o clube vem fazendo, para os presentes. Além disso, o Mineirão sorteou 3 pares de ingressos para o jogo contra o Bahia. 

Por Júlia Côrtes

Roteiro Alternativo

Assuntos comuns, ângulos diferentes. Vem com a gente!