A luta em meio ao luto por Marielle

Marielle Franco foi executada em 14 de março de 2018. Negra, mulher, mãe solteira, bissexual, cria da favela, aluna da primeira turma de pré-vestibular comunitário da Maré, chegara ao diploma em ciências sociais e ao mestrado em administração pública antes de eleger-se a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro. Sua trajetória foi construída contrariando todas as estatísticas dos destinos mais prováveis para as mulheres e os jovens pretos e pardos no Brasil.

A vereadora lutava para dar voz aos menos favorecidos, denunciava os excessos dos militares e era a relatora da comissão da Câmara de Vereadores do Rio criada para acompanhar a intervenção federal na cidade. A morte de Marielle foi um ato planejado, os criminosos não roubaram nada, já chegaram atirando e sabiam o que estavam fazendo. A perícia concluiu que nove tiros foram disparados em direção ao carro, mirando a vereadora. Seu motorista Anderson Gomes, estava na linha de tiro e não resistiu as três balas que o atingiram. Segundo as investigações o lote de munições utilizados no crime teria sido vendido para a Polícia Federal em Brasília. A TV Globo informou que trata-se do mesmo lote utilizado na chacina de Osasco, ocorrida em 2015.

Repercussão

Devido à grande comoção gerada, a história adquiriu relevância além das fronteiras do país e chamou a atenção da ONU, que escolhe casos simbólicos que possam servir de exemplo da luta pelos direitos humanos ao redor do mundo. A Organização dos Estados Americanos (OEA) antecipou a vinda da relatora do Brasil na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A viagem que estava marcada para novembro deverá acontecer em maio. A comissão também já encaminhou uma carta ao Palácio do Planalto com pedido de informações sobre a intervenção federal na área de segurança do Rio. A Anista Internacional, ONG internacional com sede no Brasil, emitiu nota condenatória. Um dos principais jornais norte-americanos, o The Washington Post, estampou na primeira página da edição impressa e do site imagens de Marielle e de protestos. “Uma política negra foi morta a tiros no Rio. Agora é um símbolo global”, diz o título.

Além disso, mais de 50 deputados do Parlamento Europeu pediram a suspensão das negociações para um acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. Os parlamentares fazem parte do Grupo da Esquerda Unitária Europeia, que reúne 52 deputados europeus de partidos comunistas e socialistas, como o Podemos, o grego Syriza, o irlandês Sinn Féin, o alemão Die Link e o português Bloco de Esquerda. O grupo tem cerca de 7% dos assentos no Parlamento da UE.

Em Belo Horizonte, a vereadora mais votada em 2016, Áurea Carolina tem muito em comum com Marielle. Ambas eram do mesmo partido (PSOL), mulheres jovens e uma história de militância por causas em defesa dos direitos humanos. Áurea é ativista das lutas pela inclusão das mulheres, da juventude e da população negra. Ao lado da vereadora Cida Falabella (PSOL) exerce um mandato coletivo, ao qual deram o nome de Gabinetona.

As duas trabalham com uma equipe única, em um espaço sem divisórias na Câmara Municipal de BH, e em colaboração com pessoas da cidade. Em roda de conversa no campus do Coração Eucarístico da PUC Minas, perguntaram a Áurea se a execução lhe deixava apreensiva quanto a sua segurança, a vereadora assegurou não sentir medo algum: “Querem que a gente caia nessa cilada. Querem passar a mensagem de que a gente estava indo longe demais. Mas ao contrário. Isso não vai nos intimidar”. Áurea espera mais candidatos com perfil semelhante ao dela e de Marielle nas próximas eleições e acredita que “o espírito da vereadora permanece vivo como uma força ancestral, encorajadora e que não nos permite retroceder”.

Áurea Carolina em roda de conversa na PUC Minas. (FOTO: LUCAS GOMES)