A ascensão das torcidas antifascistas em Minas Gerais

Historicamente, futebol e política sempre andaram lado a lado, seja com envolvimento de futebolistas em candidaturas políticas, seja com manifestações provindas das arquibancadas. Devido ao conturbado momento político vivido pelo Brasil, protestos e movimentos ideológicos acentuam-se em meio aos torcedores, graças à parcial liberdade de expressão existente nos campos de futebol. Em retaliação aos ataques machistas, homofóbicos, racistas e excludentes no cenário esportivo, surgem as torcidas denominadas antifascistas, com o objetivo de levar mais tolerância e liberdade para os estádios brasileiros.

O surgimento de torcidas com caráter progressista perpassa significativamente pela modernização do futebol. O preço cobrado pelos ingressos, o preço de alimentos dentro dos estádios, o horário das partidas influenciado pelas emissoras de televisão e a falha na execução do Estatuto do Torcedor são temas frequentemenete discutidos pelos torcedores, que buscam levar estes assuntos às arquibancadas.

A primeira torcida com viés pautado na política nasceu no Ceará, em 2005. A Ultras Resistência Coral, formada por torcedores do Ferroviário Atlético Clube, surgiu da convergência da luta da classe operária com a paixão pelo futebol. O objetivo sempre foi lutar pelas causas sociais, tanto dentro dos estádios, quanto fora deles. “Levantar pautas como o combate ao machismo, a homofobia e apoio às causas feministas é de primordial importância’’, afirmou Leonardo, representante da torcida.

Minas Gerais

Bandeira da RAP no Mineirão (Foto: RMC Fotografia)

Em Minas, torcedores de Cruzeiro, Atlético e América também se organizaram com intuito de levar questões sociais para os campos de futebol. A Resistência Azul Popular (RAP), movimento organizado por cruzeirenses, nasce em 2015, a partir de questionamentos de torcedores em relação ao acelerado processo de elitização do Mineirão, a arbitrariedade do clube e às opressões reproduzidas pelo esporte.

 

A torcida – que ainda não se intitula como organizada – atua em três frentes: contra a elitização dos estádios, busca por um clube popular e democrático e luta pelo fim das opressões. “Temos que entender que não existe democratização com a arquibancada exclusiva para os mais abastados financeiramente. Outro fator para democratizar a arquibancada é que toda pessoa, independente de sua cor, etnia, gênero, sexualidade, nacionalidade e outras questões sintam-se seguras no ambiente dos estádios”, afirma um representante do coletivo.

A RAP opera, também, fora dos estádios. Já foram realizados seminários sobre o direito ao voto para o sócio-torcedor, aulas públicas sobre a administração do Mineirão e rodas de conversas sobre o machismo no futebol. Além disso, o movimento conseguiu levar 50 haitianos em um jogo do Cruzeiro, apenas com doações da torcida.

Camisa da Galo Marx – corpo de Reinaldo e cara de Marx

Pelo lado alvinegro, a Galo Marx surge em 2011, a partir da união da luta pela emancipação dos trabalhadores com a sua paixão pelo futebol, precisamente pelo Atlético Mineiro. “O pessoal queria fazer uma organização de esquerda vinculada à história do Galo e, pensando no nome, veio logo o de Marx”, conta Lucas Morais, um dos representantes mais antigos.

O ex-atacante Reinaldo, ídolo da torcida atleticana, foi escolhido para ser o ícone da torcida, por sua resistência à ditadura. Ao marcar um gol, ele comemorava com o braço erguido e o punho cerrado, em protesto contra o regime militar. Diante disso, membros da torcida constituíram uma arte em que a cara de Reinaldo é substituída pela de Karl Marx, para ser estampada em uma das camisas.

Com milhares de adeptos nas redes sociais, a torcida encontra-se em um processo de evolução. O desafio atual é organizar atividades para tornar o movimento mais orgânico e menos virtual. Entretanto, a Galo Marx sempre teve presença significativa nas arquibancadas, o que possibilitou a disseminação de ideais contrários à elitização do futebol, à homofobia, ao preconceito e ao machismo entre os atleticanos.

Símbolo da torcida América Antifa

Na luta por um esporte mais democrático e livre de preconceitos, a América Antifa foi criada em 2016, a partir de um núcleo progressista da torcida Seita Verde – organizada do América. A confluência de temáticas esportivas e políticas se faz presente tanto nas arquibancadas, quanto nas redes sociais, mas, não é bem aceita por todos.

João Victor, um dos fundadores do movimento, afirma que muitos torcedores são contrários à associação da imagem do clube a temas políticos. “Procuramos sempre nos explicar educadamente. A vantagem é que alcançamos muitas pessoas e, pelo menos, fazemos algumas delas refletirem sobre temas que consideramos importantes. Quem sabe não estamos plantando a semente da mudança na cabeça de algumas delas?”.

A torcida também enaltece o fato de que o América é o único clube mineiro da Série A do Campeonato Brasileiro a manter uma equipe feminina de futebol. “Nos orgulhamos do América ter um time feminino. Algo que alguns clubes não valorizam e que deviam passar a valorizar”, ressalta Claudiney Silva, membro.